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José Graziano da Silva, idealizador do Fome Zero, alerta que o Brasil, apesar de fora do Mapa da Fome, ainda sofre com alta insegurança alimentar em regiões como Amazônia e Nordeste. Ele critica a metodologia do Mapa e defende políticas públicas com orçamento obrigatório, ações contra ultraprocessados, e medidas antecipatórias para enfrentar crises e a obesidade.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
O Brasil saiu do Mapa da Fome pela primeira vez em 2014, mas retornamos a ele em 2021, conseguindo sair novamente em julho de 2025. Felizmente, hoje, continuamos fora dele, mas isso não quer dizer que a fome tenha sido erradicada no país, nem que o brasileiro esteja se alimentando melhor. Longe disso.
O cálculo do Mapa da Fome da ONU é feito por meio do indicador PoU (Prevalence of Undernourishment, ou Prevalência de Subalimentação), que mede a porcentagem da população de um país cujo consumo habitual de calorias não atinge o mínimo necessário para uma vida ativa e saudável. É um valor só para o país inteiro. Não há um índice por região ou por extrato de renda. Um país entra no Mapa da Fome quando a subalimentação crônica ou subnutrição atinge 2,5% ou mais da sua população.
Em entrevista exclusiva à coluna, José Graziano da Silva, idealizador do histórico programa Fome Zero no Brasil e diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) de 2012 a 2019, diz que “se a Amazônia e o Nordeste fossem um país, estariam no Mapa da Fome”.
“O fato de o indicador ser único para o país, num país da dimensão do Brasil, desvirtua muito”, avalia. Quando se usa outro indicador, o de segurança alimentar, introduzido por Graziano na FAO, em 2015, o cenário muda de figura.
“Temos hoje proporção em alguns estados da federação de valores superiores a 20% de insegurança alimentar moderada [quando você não faz as três refeições por dia, pula uma refeição ou faz uma refeição incompleta] ou grave [quando fica um dia sem comer pelo menos], na região amazônica e no Nordeste”, aponta o diretor-geral do Instituto Fome Zero, referência global em segurança alimentar.
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No Chile, onde Graziano mora hoje, acontece a mesma coisa. O país também está fora do Mapa da Fome, mas os indicadores de insegurança alimentar no Norte, no Deserto do Atacama, e no Sul, no Estreito de Magalhães, estão muito acima da média de Santiago, por exemplo.
A FOME SE ESCONDE
“O que eu chamo de ‘last mile’ [última milha] é o mais difícil. Quando sobra esses 1% ou 2% não é simples. A fome se esconde. A grande dificuldade é que essas pessoas não estão organizadas. Não vamos encontrá-las reunidas num determinado lugar, cadastradas”, explica, ressaltando a importância de programas como o de busca ativa, que ajudou o país a sair do Mapa da Fome pela primeira vez, para encontrá-las.
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Segundo ele, o Brasil, por enquanto, é o único país do mundo que já conseguiu essa façanha de sair, voltar e sair de novo do Mapa da Fome. “É claro que sair é uma grande conquista, mas o grande problema é voltar. O desafio hoje é não voltar nunca mais para o Mapa da Fome”, diz. “Que bases precisamos criar para isso?”, questiona.
Políticas como de saúde e de educação têm dotações orçamentárias mínimas garantidas por percentuais obrigatórios definidos na Constituição Federal de 1988. Já alimentação, não, lamenta o especialista.
O Brasil voltou para o Mapa da Fome, em 2021, poque os recursos do programa de agricultura familiar chegaram a praticamente zero e o Programa Nacional de Alimentação Escolar, o PNAE, ficou anos com seu valor congelado. “Isso acaba com os programas na prática”, afirma, sugerindo que o orçamento para eles também deveria ser obrigatório.
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“Esse é o caminho para transformar essas políticas que são governamentais em políticas públicas de Estado que são garantidas, independentemente do governo de plantão.”
O ENFRENTAMENTO À OBESIDADE
Fome e obesidade coexistem no país como expressões de um mesmo sistema alimentar. Mais do que garantir as calorias necessárias, o que está na mesa hoje é como deter o consumo de ultraprocessados e a crescente prevalência de sobrepeso e obesidade.
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Há muitos motivos para explicar a mudança no padrão alimentar do brasileiro: a falta de tempo para cozinhar, a baixa disponibilidade de frutas, verduras e legumes, quando comparada à de ultraprocessados, e o alto preço dos alimentos saudáveis.
“O ultraprocessado é muito mais barato que os alimentos frescos”, aponta o especialista. “Relatório da FAO divulgado recentemente traz o custo da cesta básica saudável nas várias regiões do mundo e um dos mais altos é o da América do Sul, em particular do Brasil, que tem 15% a mais do custo da dieta mundial”, alerta. Pelas suas contas, uma família de quatro pessoas gasta, em média, um salário-mínimo só no consumo de alimentos para subsistência básica.
O consumo de ultraprocessados cresceu no mundo todo. Países vizinhos, como o Chile, têm adotado políticas eficientes para combatê-los e, principalmente, afastá-los das crianças e das escolas. Lá, produtos que têm um dos quatro selos de alerta na embalagem (alto teor em açúcar, alto teor em sódio, alto teor em gordura saturada e alto teor em gordura trans) não podem estar na prateleira do supermercado ao alcance da visão das crianças. Há ainda uma série de restrições de distribuição e de propaganda. “Não tem propaganda na televisão e esses produtos são proibidos de serem vendidos em cantinas escolares e num raio de um quilômetro das escolas”, conta.
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Para Graziano, a obesidade é hoje um problema mais complexo que a fome, pois envolve uma série de elementos – desde o status desse tipo de produto até o padrão de consumo. “Tenho defendido que precisamos fazer algo parecido com o que se fez com o tabaco”, afirma.
Fumante inveterado por 30 anos, ele diz que paga as contas disso até hoje. “Comecei a fumar por status. Era jovem, ia numa reunião e todos fumavam”, lembra. A história da obesidade tem, segundo ele, também um pouco desse padrão. “Mesmo coibindo ou diminuindo o consumo de ultraprocessados em casa, o problema segue na escola, no restaurante da universidade, na rua, onde eles estão, sem nenhum alerta dos riscos, acessíveis.”
Embora a merenda escolar deva ter hoje 45% de produtos comprados diretamente da agricultura familiar, ainda não se consegue fazer isso, lamenta. “Temos estudado no instituto várias merendas escolares. As prefeituras nos pedem ajuda. Dizem que não conseguem pagar. O custo é muito alto para introduzir frutas, verduras e legumes. E o custo é alto porque produzimos pouco. Não temos os incentivos como há para soja e carnes, por exemplo”, diz.
Graziano defende mudanças no padrão de subsídio a frutas, verduras e legumes e que o chamado “imposto do pecado” sobre refrigerantes, sucos artificiais e outras bebidas com adição de açúcar, aprovado no âmbito da reforma tributária, seja de fato estabelecido logo.
Enfrentar o consumo excessivo de ultraprocessados inclui ainda, segundo ele, ampliar o acesso à comida de verdade, construindo uma agenda positiva, por meio de compras públicas e alimentação escolar, abastecimento de periferias, apoio à agricultura familiar e iniciativas como restaurantes populares em uma escala massiva, como aconteceu na China.
“O fornecimento de uma refeição saudável pelo menos uma vez ao dia produz uma mudança de hábito alimentar fundamental e importante”, diz. No Brasil esse tipo de política existe, mas ainda é muito restrita, direcionada praticamente a uma população em situação de rua.
POLÍTICAS ANTECIPATÓRIAS SÃO FUNDAMENTAIS
Fenômenos climáticos como o El Niño podem encarecer os alimentos num futuro próximo em até 20%, o que sem dúvida deve ter um impacto ainda maior na qualidade da alimentação dos mais pobres. Em vez de sentar e esperar que o pior aconteça, Graziano defende as chamadas políticas de proteção social antecipatórias, o velho prevenir em vez de remediar.
Infelizmente, no Brasil, toda a ação desde sempre costuma vir depois das tragédias, das mais simples às mais complexas. “O banco, por exemplo, só paga depois da seca ter matado os animais ou acabado com a safra e o início da ação pública começa com a decretação do estado de emergência pelo prefeito”, enumera. “Prevenir é muito mais barato. Estudos da FAO têm mostrado que o custo de agir depois do desastre é até sete vezes maior”, alerta.
Com previsões do tempo cada vez mais precisas, a antecipação do pagamento do seguro com base nelas, por exemplo, pode ser uma alternativa, assim como estoques de segurança de cestas básicas, acredita Graziano.
Mecanismos já existentes como o Cadastro Único, podem ainda ajudar na localização das pessoas mais necessitadas e direcionar ações específicas, como acesso a uma cesta básica para ser retirada no supermercado por meio de um vale, sugere. “Sabemos que o dinheiro do Bolsa Família não vai dar para comprar. Então, é preciso reforçar na parte alimentar”, diz.
“As soluções existem. Já foram testadas e aprovadas”, comenta Graziano. Acabar com a fome e enfrentar a obesidade é uma questão acima de tudo política de estabelecer prioridades e implementá-las. Comer bem é, afinal, um direito de todos.
*Jornalista e diretora da Cross Content Comunicação. Há mais de três décadas escreve sobre temas como educação, direitos da infância e da adolescência, direitos da mulher e terceiro setor. Com mais de uma dezena de prêmios nacionais e internacionais, já publicou diversos livros sobre educação, trabalho infantil, violência contra a mulher e direitos humanos. Siga a colunista no Instagram.
