A obesidade, já associada a doenças como diabetes, infarto e alguns tipos de câncer, pode ter um impacto ainda mais amplo sobre a saúde. Um estudo publicado na revista científica The Lancet indica que adultos com excesso de peso apresentam um risco cerca de 70% maior de hospitalização ou morte por infecções, que vão de pneumonias e infecções urinárias a doenças virais e bacterianas graves.
Quando esse aumento de risco é projetado para a população como um todo, os pesquisadores estimam que aproximadamente uma em cada dez mortes por doenças infecciosas no mundo possa estar associada à obesidade. No auge da pandemia de covid-19, o impacto foi ainda maior: cerca de 15% das mortes globais por causas infecciosas em 2021 estariam relacionadas ao excesso de peso.
Para chegar a essas conclusões, os autores analisaram dados de mais de 540 mil adultos, acompanhados por até 14 anos. Nenhum dos participantes havia sido hospitalizado por infecção antes do início do acompanhamento, o que ajudou a reduzir vieses.
Como metodologia, os pesquisadores cruzaram informações sobre índice de massa corporal (IMC), circunferência abdominal e razão cintura-altura com registros nacionais de internações hospitalares e óbitos. No total, foram avaliadas 925 doenças infecciosas diferentes, causadas por bactérias, vírus, fungos e parasitas.
Resultados
Os resultados indicam que quanto maior o grau de obesidade, maior o risco. Pessoas com obesidade grave (IMC acima de 40) apresentaram um risco cerca de três vezes maior de hospitalização ou morte por infecções em comparação com indivíduos com peso dentro dos parâmetros considerados adequados.
Segundo os autores, mesmo após considerar outros fatores que influenciam a saúde — como idade, tabagismo, nível de atividade física, doenças crônicas e condições socioeconômicas — a associação permaneceu forte, indicando que a obesidade pode, sim, estar ligada ao aumento do risco.
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Não é só covid
Embora a relação entre obesidade e quadros graves de covid-19 já estivesse bem documentada, o estudo mostra que o problema vai muito além da pandemia. O excesso de peso esteve associado a um risco maior de praticamente todos os tipos de infecção analisados.
As associações mais fortes apareceram em infecções de pele e tecidos moles, como celulite e abscessos, mas também foram observadas em pneumonias, infecções urinárias, gastrointestinais e doenças virais agudas, como a gripe. No caso da covid-19, pessoas com obesidade apresentaram um risco mais que dobrado de evoluir para quadros graves.
Também tiveram algumas exceções que chamaram atenção. Não houve, por exemplo, associação clara entre obesidade e infecção por HIV ou tuberculose, o que, segundo os autores, pode refletir mecanismos biológicos e sociais distintos nessas doenças.
Por que a obesidade aumenta o risco?
O estudo não foi desenhado para explorar o que está por trás desse efeito, mas os pesquisadores destacam possíveis mecanismos já conhecidos. A obesidade está associada a inflamação crônica, alterações no funcionamento do sistema imunológico e maior dificuldade do organismo em combater microrganismos.
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Além disso, níveis elevados de glicose no sangue podem favorecer a proliferação de patógenos, enquanto mudanças na função de células de defesa reduzem a capacidade de resposta a infecções. Fatores anatômicos, como menor eficiência respiratória, também podem contribuir para quadros mais graves.
Limitações
Apesar do grande número de participantes e da consistência dos resultados, os próprios autores destacam que o estudo tem limitações e que os dados devem ser interpretados com cautela.
A principal delas é que se trata de um estudo observacional. Em termos simples, isso quer dizer que os pesquisadores observaram uma forte relação entre obesidade e infecções graves, mas não dá para afirmar com toda certeza que o excesso de peso seja a causa direta dessas internações e mortes.
Os cientistas tentaram reduzir esse risco ajustando as análises para fatores como idade, gênero, tabagismo, nível socioeconômico, prática de atividade física e presença de outras doenças. Ainda assim, sempre ficam variáveis difíceis de medir, como a qualidade da alimentação, o acesso aos serviços de saúde ou até a rapidez com que cada pessoa procura atendimento médico quando fica doente.
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Outro ponto importante é que o peso dos participantes foi registrado apenas no início do estudo. Mudanças ao longo dos anos, como ganhar ou perder peso, não foram totalmente acompanhadas. Por isso, o trabalho não consegue responder com precisão se emagrecer ao longo do tempo reduz o risco de infecções, embora análises adicionais indiquem que essa redução pode, sim, fazer diferença.
Mesmo com essas limitações, os autores afirmam que os resultados ampliam a forma como a obesidade deve ser encarada na saúde pública. Para eles, o excesso de peso deve ser olhado para além das doenças crônicas. “Nossos achados sugerem que a obesidade desempenha um papel importante no risco de infecções graves”, escreveram.
