Durante décadas, o infarto foi tratado como uma “doença masculina”. Hoje, as evidências científicas mostram não apenas que ele mata tanto mulheres quanto homens, mas que nelas a doença isquêmica do coração se manifesta de forma mais complexa, silenciosa e, muitas vezes, mais grave. A Diretriz Brasileira de Síndrome Coronariana Crônica, publicada no ano passado, reforça essa virada de olhar e ajuda a explicar por que tantas mulheres ainda recebem diagnóstico tardio e tratamento menos eficaz.
Um dos avanços centrais da diretriz é abandonar a ideia de que infarto e angina só acontecem quando há “entupimento” das artérias. Hoje, o termo mais adequado é doença isquêmica cardíaca, que engloba não apenas a doença aterosclerótica clássica (entupimento por placa de gordura), mas também condições muito mais frequentes nas mulheres, como isquemia e angina sem obstrução das artérias coronárias (INOCA/ANOCA); infarto sem obstrução coronariana (Minoca).
O infarto sem obstrução das artérias coronárias (Minoca) representa 5 a 10% de todos os infartos, mas é três vezes mais comum em mulheres jovens do que em homens (10,5% versus 3,4%). Seus mecanismos incluem vasoespasmo, disfunção microvascular, trombose, embolia e dissecção espontânea da artéria coronária.
O alerta da diretriz é claro: Minoca não é infarto “menor”. A mortalidade e falta de qualidade de vida após o evento podem ser semelhantes à da doença aterosclerótica clássica e o prognóstico depende diretamente da identificação correta da causa, algo que ainda falha com frequência.
Aproximadamente dois terços das mulheres com isquemia miocárdica (diminuição do fluxo de sangue e oxigênio para o músculo do coração) não apresentam obstruções significativas no cateterismo cardíaco, o que ajuda a explicar por que tantas pacientes saem do hospital com exames “normais”, apesar de sintomas persistentes. Estamos percebendo que olhar só para o cateterismo é ver apenas a ponta do iceberg.
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A boa notícia é que, no último ano, vimos um grande avanço nos exames que conseguem detectar a microcirculação do coração, por exemplo, cateteres especiais que avaliam as alterações dos microvasos, novas tecnologias de ressonância cardíaca e medicina nuclear.
A dor no peito continua sendo o sintoma mais comum do infarto em ambos os sexos. Mas é essencial reforçar que as mulheres apresentam com mais frequência sinais considerados atípicos, como falta de ar, fadiga intensa e incomum, alterações do sono, dor no dorso, pescoço, mandíbula ou braço e náuseas e vômitos.
Além disso, muitas mulheres relatam sinais de alerta que surgem dias ou semanas antes de um infarto, como cansaço extremo, desconforto no peito ou no braço e falta de ar. Isso abre uma janela preciosa de prevenção que ainda é pouco valorizada, pela própria paciente e pela equipe médica.
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Mesmo quando recebem diagnóstico, as mulheres ainda enfrentam desvantagens importantes. Segundo a diretriz, o prognóstico feminino após o infarto é pior do que o masculino com mortalidade em um ano: 26% nas mulheres versus 19% nos homens; mortalidade em 5 anos: 47% versus 36% nos homens; maior taxa de reospitalização; e maior risco de insuficiência cardíaca em mulheres, principalmente nas mais idosas.
O peso dos fatores de risco é diferente nelas
Hipertensão e diabetes aumentam o risco cardiovascular em ambos os sexos, mas o impacto dessas condições sobre o coração é mais intenso nas mulheres, especialmente no desenvolvimento de insuficiência cardíaca. Entre as mulheres com doença cardíaca, a obesidade é mais comum e costuma significar mais cansaço, mais falta de ar e mais limitações no dia a dia, mesmo quando o risco de morrer é parecido com o dos homens.
O estrogênio exerce efeitos cardioprotetores importantes, reduzindo o estresse oxidativo e a inflamação das artérias. As mitocôndrias femininas, por exemplo, toleram melhor a falta de oxigênio do que as masculinas. Mas esse “escudo biológico” se perde progressivamente após a menopausa. A partir da sétima década de vida, as taxas de infarto e mortalidade cardiovascular se igualam entre homens e mulheres, um dado que reforça a importância da prevenção antes desse marco.
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Tratamento ainda desigual e prevenção
Apesar das evidências, as mulheres continuam recebendo menos terapias baseadas em diretrizes, são menos encaminhadas para exames invasivos e participam menos de ensaios clínicos. Isso limita o refinamento das estratégias terapêuticas e perpetua desigualdades no cuidado cardiovascular.
A boa notícia é que a maior parte do risco cardiovascular feminino é modificável. As principais recomendações incluem:
Conhecer seus fatores de risco como hipertensão arterial, aumento do colesterol, diabetes, obesidade, sedentarismo, tabagismo, alterações do sono, histórico de doenças obstétricas como diabetes gestacional, pré-eclâmpsia/eclâmpsia
Não negligenciar sintomas como cansaço extremo, falta de ar e dor no tórax atípica
Praticar atividade física regularmente, combinando exercícios aeróbicos e de força
Adotar uma alimentação cardioprotetora, rica em frutas, legumes, fibras e gorduras boas
Dormir bem e manejar o estresse e fatores psicossociais, que inclusive conferem maior impacto no coração feminino
Parar de fumar e moderar o álcool
Seguir corretamente o tratamento prescrito, inclusive mudanças no estilo de vida
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O recado é claro: o coração da mulher não é uma versão menor do coração do homem. Reconhecer suas particularidades é o primeiro passo para reduzir diagnósticos tardios, infartos evitáveis e mortes precoces.
*Ieda Jatene e Salete Nacif são cardiologistas e coordenadoras do Socesp Mulher, da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo
