O câncer deixou de ser apenas um desafio médico. Hoje, ele representa um dos maiores problemas sociais, econômicos e humanos do Brasil contemporâneo. Enquanto doenças infecciosas perderam protagonismo nas últimas décadas, os tumores malignos avançaram de forma silenciosa, impulsionados pelo envelhecimento populacional, urbanização acelerada, obesidade, sedentarismo, tabagismo, álcool e profundas desigualdades de acesso à saúde.
Durante muito tempo, o câncer foi encarado principalmente como uma fatalidade biológica. Hoje, esse entendimento se tornou mais complexo. Os avanços da oncologia moderna mostram que a doença resulta da interação entre fatores genéticos, ambientais, comportamentais e sociais. Em outras palavras: o tumor não nasce apenas das células, mas também do contexto em que as pessoas vivem.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer já representa uma das principais causas de morte no país. Mas alguns tumores concentram uma combinação especialmente agressiva de alta incidência, diagnóstico tardio e elevada mortalidade — e acabam revelando muito mais do que um problema médico —. Eles expõem as desigualdades estruturais do Brasil.
O câncer de pulmão, por exemplo, permanece como o tumor que mais mata no país. Embora não seja o mais frequente, continua liderando em mortalidade porque a maioria dos pacientes ainda recebe o diagnóstico em fases avançadas. O principal fator de risco continua sendo o tabagismo, mas novos elementos vêm ganhando relevância, como cigarros eletrônicos, poluição atmosférica e exposição ambiental crônica a partículas inaladas.
A taxa de sobrevida em cinco anos gira em torno de 18%, um dos piores resultados da oncologia. Ainda assim, existe um dado fundamental nessa discussão: quando descoberto precocemente, o câncer de pulmão pode ser potencialmente curável. Em diversos países, programas de rastreamento com tomografia de baixa dose já demonstraram redução significativa da mortalidade em populações de alto risco. Isso mostra que o problema não está apenas na agressividade biológica do tumor, mas também na capacidade do sistema de saúde de identificar a doença cedo.
O mesmo raciocínio aparece de forma ainda mais clara no câncer de mama. Hoje, ele é o tumor mais frequente entre mulheres brasileiras e uma das principais causas de morte feminina por câncer. Mas também está entre os tumores com maior potencial de cura da medicina moderna. Quando identificado precocemente, especialmente em tumores menores que dois centímetros, as taxas de cura ultrapassam 95%. Isso significa que detectar cedo muda completamente a história da paciente.
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Nas últimas décadas, terapias-alvo, testes genômicos, cirurgia conservadora, reconstrução mamária e imunoterapia transformaram profundamente os resultados do tratamento. O câncer de mama deixou de ser uma doença única e passou a ser compreendido em diferentes subtipos biológicos, cada um com comportamento e estratégias terapêuticas específicas.
Recentemente, atendi uma paciente que havia tratado comigo há cerca de dez anos. Na época, ela apresentava um câncer de mama HER2 positivo extremamente agressivo, com um tumor de aproximadamente oito centímetros e linfonodos positivos na axila — um cenário que, historicamente, estava associado a uma taxa de mortalidade muito elevada —.
Optamos por uma estratégia de tratamento com quimioterapia neoadjuvante — realizada antes da cirurgia — associada à terapia-alvo anti-HER2. A resposta foi impressionante. O tumor reduziu drasticamente de tamanho, permitindo preservar a mama com uma cirurgia conservadora. Hoje, essa paciente está curada. Casos como esse mostram de forma muito clara a revolução que a oncologia viveu nos últimos anos. Tumores que antes tinham prognóstico extremamente desfavorável passaram a apresentar respostas impressionantes graças à medicina de precisão e às terapias direcionadas.
Gostaríamos de ter cada vez mais histórias como essa. Mas essa ainda não é a realidade da maior parte do Brasil. Infelizmente, muitos pacientes ainda recebem o diagnóstico tardiamente, quando a doença já se encontra avançada. E, em vários tumores agressivos, seguimos sem tratamentos suficientemente eficazes para mudar completamente o desfecho clínico.
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Apesar disso, o diagnóstico tardio ainda representa um dos maiores desafios brasileiros. Mulheres com menor renda, menor escolaridade ou dificuldade de acesso ao sistema de saúde realizam menos mamografias e frequentemente enfrentam demora para conseguir consulta, biópsia e tratamento. Na prática, o CEP ainda influencia diretamente as chances de sobrevivência.
Esse mesmo padrão epidemiológico aparece no câncer colorretal, um dos tumores que mais crescem no Brasil e no mundo. Associado diretamente ao estilo de vida urbano contemporâneo, ele acompanha o avanço da obesidade, do sedentarismo e do consumo de alimentos ultraprocessados.
O câncer de intestino talvez seja um dos exemplos mais emblemáticos da transição epidemiológica moderna: quanto mais industrializada e urbanizada uma sociedade se torna, maior tende a ser sua incidência. Ao mesmo tempo, trata-se de um dos tumores com maior potencial de prevenção. A colonoscopia permite identificar e remover pólipos antes mesmo que eles se transformem em câncer. Poucos exames possuem impacto preventivo tão poderoso na medicina.
Ainda assim, muitos pacientes chegam ao diagnóstico em fases avançadas, já com anemia, sangramento, perda de peso ou doença metastática. Isso reforça um paradoxo importante da oncologia brasileira: muitos dos tumores que mais matam são justamente aqueles em que o diagnóstico precoce poderia salvar milhares de vidas.
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Entre os homens, o câncer de próstata segue como o tumor maligno mais frequente. Seu impacto cresce à medida que a população envelhece. Embora muitos casos apresentam evolução lenta, parte importante dos pacientes ainda chega ao sistema de saúde com doença avançada, especialmente em regiões com menor acesso ao diagnóstico.
Os avanços terapêuticos transformaram radicalmente o tratamento da doença. Hoje, cirurgia robótica, radioterapia moderna, hormonioterapia e medicina de precisão permitem que muitos pacientes convivam por anos com excelente controle tumoral e qualidade de vida. O grande desafio atual talvez não seja apenas tratar mais, mas identificar corretamente quais tumores realmente ameaçam a vida do paciente.
Já o câncer de estômago continua refletindo um problema historicamente associado à desigualdade social. Embora diversos países tenham reduzido drasticamente sua incidência, ele ainda mantém elevada mortalidade no Brasil, principalmente pelo diagnóstico tardio. Fatores como infecção por Helicobacter pylori, alimentação rica em sal e ultraprocessados, tabagismo e condições socioeconômicas desfavoráveis continuam profundamente ligados ao desenvolvimento da doença. O grande problema é que os sintomas iniciais costumam ser vagos, permitindo que muitos pacientes só descubram o tumor em fases avançadas.
No fim, os dados sobre câncer no Brasil mostram que o problema vai muito além da biologia tumoral. Renda, escolaridade, território, acesso à informação e disponibilidade de tratamento influenciam diretamente quem adoece, quem recebe diagnóstico precoce e quem sobrevive.
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Existe um Brasil onde o câncer é identificado cedo, tratado rapidamente e frequentemente curado e onde o diagnóstico chega tarde demais. Essa talvez seja a face mais cruel da oncologia nacional: em muitos casos, o CEP ainda ajuda a definir as chances de sobreviver ao câncer no país.
*Wesley Andrade é médico mastologista e cirurgião oncologista
