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Alexander Zverev venceu Roland Garros e a mídia destacou seu diabetes tipo 1. O artigo critica a visão “apesar do diabetes”, ressaltando que sua vitória foi “com diabetes”, fruto de um manejo metabólico rigoroso e uma equipe multidisciplinar. É uma conquista extraordinária pela complexidade clínica e dedicação.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Alexander Zverev ganhou Roland Garros no domingo. Ponto. Foram cinco sets, quatro horas e dezesseis minutos de partida e um adversário despachado por 6 a 1 no set decisivo. Primeiro Grand Slam da carreira. Primeiro alemão campeão em Paris em décadas. Um feito monumental, por qualquer ângulo que se olhe.
Mas então vieram os títulos: “Diabético vence Roland Garros.” “Campeão tem diabetes tipo 1.” “Zverev supera doença e conquista Grand Slam.”
E eu me pergunto: por que isso precisa ser tão enfatizado?
Existe uma versão condescendente dessa celebração. Aquela que diz nas entrelinhas: “Que incrível que ele conseguiu, mesmo assim.” Esse “mesmo assim” é um veneno disfarçado de elogio. Ele sugere que Zverev partiu em desvantagem moral; que o diabetes é uma sentença que precisa ser enfrentada “apesar de”, e não “junto com”; que as pessoas com diabetes são, por definição, frágeis — e que qualquer conquista delas carrega um asterisco de compaixão.
Essa versão me incomoda. E deveria incomodar você também. Mas existe outra versão. A verdadeira. E essa merece ser contada em letras maiúsculas.
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Zverev não venceu apesar do diabetes. Ele venceu com o diabetes. E isso, sim, é extraordinário — não por pena, mas pela complexidade clínica e pelo rigor cotidiano envolvidos.
Pense na rotina de um tenista de elite. Treinamentos duas vezes ao dia. Dieta milimétrica. Sono controlado. Recuperação muscular monitorada. Agora acrescente a tudo isso o seguinte: doses de insulina que podem precisar ser aplicadas durante os intervalos das partidas, com o objetivo de manter os níveis de glicose estáveis, pois qualquer descompensação pode causar desde tontura até problemas mais graves.
Parece simples? Não é. Em um esporte como o tênis, nunca se sabe quanto tempo uma partida irá durar. Pode ser uma hora. Podem ser quatro horas e meia. O atleta não controla o placar. Não controla o adversário. E, enquanto seu cérebro calcula ângulos, velocidade da bola e posicionamento na quadra, uma parte silenciosa de sua atenção está monitorando a glicemia, a hidratação, a ingestão calórica e a dose de insulina. Tudo em tempo real. Sem pausas programadas.
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Em 2023, também em Roland Garros, Zverev chegou a ser impedido de aplicar insulina durante uma partida — episódio irresponsável que, felizmente, não se repetiu. Pense nessa imagem: um atleta de altíssimo rendimento, no meio de uma batalha física extrema, sendo impedido de realizar um procedimento médico básico, necessário para manter seu corpo funcionando adequadamente.
Não é exagero dizer que isso colocou sua saúde em risco por ignorância. “No início, disseram que competir no mais alto nível com diabetes era impossível. Minha família e eu nos recusamos a aceitar isso”, disse o tenista.
Superação
Esse é o ponto. Não se trata da superação romântica de um filme de domingo. Trata-se da recusa técnica, metódica e cotidiana em aceitar o impossível. Treinamentos específicos, ajustes de carga em determinados momentos da temporada e uma equipe multidisciplinar que provavelmente inclui endocrinologista, nutricionista e médico do esporte trabalhando em conjunto para que ele possa entrar em quadra e dar tudo de si — sem sofrer uma hipoglicemia no meio de um tie-break ou uma hiperglicemia na virada do quinto set.
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A final de domingo foi, metabolicamente falando, um campo minado. Mais de quatro horas de esforço máximo, com risco real de queda dos estoques de glicogênio e de episódios de hipoglicemia. Quem conhece o diabetes tipo 1 sabe o que isso significa. Quem não conhece precisa entender: a glicose é um dos principais combustíveis do músculo e do cérebro. Quando cai abaixo de determinado limite, o atleta não fica apenas cansado. Ele pode apresentar comprometimento cognitivo, tremores e incapacidade de continuar. E isso pode ocorrer em questão de minutos.
Zverev chegou ao quinto set e venceu por 6 a 1. Com a cabeça no jogo. Com a glicemia sob controle. Com a insulina utilizada no momento adequado e na dose necessária.
Então, voltando à pergunta inicial: por que falar tanto que uma pessoa com diabetes ganhou Roland Garros? Porque existe uma versão que não deveria existir: a da surpresa condescendente. E existe uma versão que precisa ser contada: a da complexidade real que ele administra a cada ponto disputado.
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O diabetes tipo 1 não é um detalhe biográfico. É uma condição séria, que exige manejo diário rigoroso. No contexto do esporte de altíssimo rendimento, representa uma segunda carreira paralela: a de gestor do próprio metabolismo, em tempo integral, inclusive nas quadras de saibro de Paris.
Zverev não é campeão apesar de ter diabetes. Ele é campeão. E tem diabetes. Motivos de respeito e aplauso.
