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Pesquisa Gallup revela explosão do uso de GLP-1 nos EUA e queda da obesidade. No Brasil, porém, o acesso às canetas emagrecedoras é um luxo para poucos. O alto custo, a ausência de cobertura por planos e as recusas do SUS criam um cenário de desigualdade, onde o potencial benefício de longo prazo é ignorado pelo custo imediato.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Uma nova pesquisa do Instituto Gallup revela que 11% dos americanos adultos afirmam usar atualmente um medicamento à base de GLP-1 para redução de peso corporal — quase quatro vezes mais que os 3% registrados em 2024. Somando quem já usou em algum momento, o número sobe para 15% da população.
O reflexo já aparece nas balanças do país: apesar de não podermos cravar a relação de causa e efeito, a taxa de obesidade entre adultos caiu de um pico de 39,9%, em 2022, para 36,4% em 2026 — justamente o período em que o uso das canetas emagrecedoras decolou.
É tentador imaginar que o mesmo fenômeno vai se repetir por aqui. Não vai — pelo menos não na mesma escala. E o motivo não é biológico, nem cultural: é econômico.
A conta que ninguém faz
Em 2026, o salário mínimo brasileiro é de R$ 1.621. Uma caneta de Ozempic ou Wegovy, nas farmácias do país, custa entre R$ 1.077 e R$ 1.400 nas doses mais usadas — podendo passar de R$ 2.600 nas doses mais altas. Ou seja: um trabalhador que ganha o mínimo pode comprometer mais de 100% de todo o seu salário mensal para bancar um único mês de tratamento. Sozinho, sem contar consulta, exames e acompanhamento.
Nos Estados Unidos, o preço de tabela do Wegovy também impressiona — cerca de US$ 1.349 por mês, mais do que ganha um trabalhador no salário mínimo federal americano em um mês inteiro. À primeira vista, parece a mesma barreira.
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Mas é aí que a comparação muda de figura: nos EUA existe um ecossistema inteiro construído para furar esse preço de tabela — cartões de desconto do próprio fabricante que derrubam o valor para US$ 149 a US$ 349, planos de saúde que cobrem parte do custo, e um novo programa federal do Medicare que, a partir de julho deste ano, oferece a caneta por US$ 50 a idosos elegíveis.
A Novo Nordisk já anunciou, inclusive, um corte de até 50% no preço de tabela a partir de 2027.
No Brasil, esse colchão não existe. Não há plano de saúde que cubra terapias para emagrecimento de forma ampla, e o SUS não oferece drogas como a semaglutida gratuitamente. E não é por falta de tentativa.
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O SUS já disse “não” cinco vezes
Em agosto de 2025, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) recomendou, mais uma vez, não incorporar a semaglutida para tratar obesidade grave associada a doença cardiovascular. O motivo declarado foi o impacto financeiro: um custo estimado entre R$ 6,5 bilhões e R$ 7 bilhões em cinco anos, valor considerado alto demais frente ao ganho de saúde calculado pela própria comissão, que usa como régua um teto de R$ 300 mil por ano de vida ajustado à qualidade.
A liraglutida, prima mais antiga da semaglutida, levou recusa ainda mais dura: projeção de custo entre R$ 8,1 bilhões e R$ 22,6 bilhões. Desde 2019, o SUS já rejeitou cinco pedidos de incorporação de medicamentos para obesidade — sempre pelo mesmo argumento.
É aqui que entra o ponto mais espinhoso da discussão: os nossos líderes olham fortemente para o custo imediato do remédio, sem pesar direito o que se economiza depois — menos infartos, menos AVCs, menos diabetes, menos internações.
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É a lógica clássica da farmacoeconomia em saúde: o investimento pesa no curto prazo, mas pode se pagar — e sobrar — no longo prazo, se reduzir complicações caras e crônicas. O problema é que essa conta de longo prazo é incerta, difícil de provar em poucos anos de estudo, e o Brasil não tem caixa para apostar nela em escala nacional. Será que por que nossos governantes pensam no prazo dos seus mandatos somente? Não seria momento de uma política de Estado. com “E” maiúsculo?
Arsenal mais amplo é solução?
Uma novidade pode ajudar nesse contexto, mas não vai permitir fechar a conta: em maio, a Anvisa aprovou o Ozivy, primeiro “similar” nacional da semaglutida, vendido a partir de R$ 498 — só que aprovado, por enquanto, apenas para diabetes tipo 2, não para obesidade.
Ou seja: mesmo mais barato, ele não resolve o problema de quem precisa emagrecer e depende do SUS.
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O resultado é um Brasil dividido em dois países: um pequeno grupo que paga do próprio bolso e tem acesso igual, ou até mais barato, do que o americano médio; e uma maioria que, sem cobertura pública nem privada, simplesmente não entra nessa conta.
Não é uma questão de a molécula funcionar diferente aqui. É que, nos Estados Unidos, o sistema decidiu, a duras penas, ampliar o acesso. No Brasil, por enquanto, ele segue dizendo não.
