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    Home»Diabetes»Semaglutida: estudo investiga possível ligação com perda rara de visão
    Diabetes

    Semaglutida: estudo investiga possível ligação com perda rara de visão

    meioesaudeBy meioesaude12 de Março, 2026Sem comentários6 Mins Read
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    Os medicamentos à base de semaglutida mudaram o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade nos últimos anos. Mas um novo estudo levanta um alerta sobre um possível efeito adverso raro: a neuropatia óptica isquêmica, uma condição que pode provocar perda significativa da visão.

    Publicado no British Journal of Ophthalmology, o trabalho analisou milhões de registros de efeitos adversos e sugere que o risco pode variar de acordo com a formulação do medicamento e até com o gênero do paciente. Ainda assim, os próprios autores destacam que os dados não permitem afirmar que os remédios causem o problema, apenas apontam uma possível associação que precisa ser confirmada por novos estudos.

    Para investigar a questão, os pesquisadores analisaram notificações de efeitos colaterais registradas no Sistema de Notificação de Eventos Adversos da FDA (a agência reguladora dos Estados Unidos, semelhante à Anvisa no Brasil). O banco de dados reúne relatos enviados por médicos, pacientes e fabricantes sobre reações indesejadas associadas a medicamentos.

    No total, foram avaliados mais de 30 milhões de registros feitos entre dezembro de 2017 e dezembro de 2024. Dentro desse universo, 31.774 relatos envolviam medicamentos à base de semaglutida. 

    Os pesquisadores analisaram especificamente os relatos relacionados a três medicamentos:

    Ozempic, usado no tratamento do diabetes tipo 2
    Wegovy, indicado para obesidade
    Rybelsus, comprimido oral para diabetes tipo 2

    Também foram avaliados registros relacionados à tirzepatida, outro medicamento da mesma classe terapêutica, comercializado como Mounjaro (para diabetes tipo 2) e Zepbound (para obesidade).

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    Entre os relatos analisados, 3.070 estavam ligados ao Wegovy (de seis países) e 20.608 ao Ozempic (de 11 países). O número maior de notificações com Ozempic provavelmente reflete o fato de ele ter sido aprovado antes – em 2017 – enquanto o Wegovy chegou ao mercado apenas em 2021.

    Mesmo com menos registros totais, o Wegovy foi o medicamento mais associado à neuropatia óptica isquêmica. Foram 28 relatos, com uma probabilidade quase 75 vezes maior de aparecer nos registros de efeitos adversos.

    No caso do Ozempic, foram 47 relatos, com uma probabilidade cerca de 19 vezes maior. Já as formas genéricas de semaglutida somaram 85 casos, com risco cerca de 21 vezes maior.

    Nenhum caso de neuropatia óptica isquêmica foi registrado entre usuários de Rybelsus. Além disso, quando comparados com outros medicamentos usados como referência, os dados não mostraram evidência clara de relação causal direta.

    Quando os pesquisadores separaram os dados por gênero, surgiram diferenças curiosas:

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    O sinal de associação foi mais forte com Wegovy entre homens (116 vezes maior);
    E mais forte com Ozempic entre mulheres (quase 27 vezes maior).

    Possíveis explicações

    Os autores discutem algumas hipóteses para explicar esses achados. Uma delas envolve a dose do medicamento e o nível de exposição do organismo.

    O Wegovy é aprovado na dose de 2,4 mg por semana, mais alta do que as doses normalmente usadas de Ozempic para diabetes. Essa exposição maior poderia provocar mudanças fisiológicas como:

    Redução do volume de sangue circulante
    Quedas de pressão arterial, especialmente durante a noite
    Alterações no sistema nervoso autônomo

    Esses fatores poderiam reduzir o fluxo sanguíneo no nervo óptico, um fenômeno conhecido como hipoperfusão, que está associado ao desenvolvimento da neuropatia óptica isquêmica.

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    Outra hipótese é que uma queda rápida da glicemia em alguns pacientes possa interferir na capacidade de autorregulação dos vasos sanguíneos do nervo óptico. Esse tipo de mecanismo já foi observado em estudos anteriores, por exemplo em casos de piora temporária da retinopatia após melhora rápida do controle do diabetes.

    Já no caso do Rybelsus, os pesquisadores sugerem que a absorção mais lenta e limitada do comprimido pode explicar por que nenhum sinal desse tipo foi detectado nos dados analisados.

    Riscos versus benefícios 

    Para o endocrinologista Paulo Augusto Carvalho Miranda, ex-presidente e atual coordenador do Departamento Internacional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), os resultados devem ser interpretados com cautela.

    Segundo ele, o trabalho se soma a outras pesquisas sobre o tema. Hoje já existem cerca de 13 estudos que investigam a possível relação entre semaglutida e neuropatia óptica isquêmica, mas a maioria tem caráter observacional.

    “O estudo tem uma força importante pelo número muito grande de notificações analisadas, mas ele é baseado apenas em relatos enviados ao FDA. Isso significa que não há um grupo comparativo e nem confirmação detalhada de cada diagnóstico”, explica.

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    Esse tipo de base de dados, diz Miranda, registra apenas a notificação de que um evento ocorreu após o uso do medicamento, sem necessariamente confirmar a relação causal. Em estudos de maior qualidade metodológica, os eventos adversos costumam ser avaliados por comitês independentes, que analisam prontuários e evidências clínicas para validar cada caso.

    Outra limitação apontada pelo especialista é a falta de informações detalhadas sobre as doses utilizadas. Embora o artigo sugira que o risco maior observado com o Wegovy possa estar relacionado à dose mais alta, os dados analisados não trazem o registro preciso da dose usada por cada paciente.

    “Os autores fazem uma inferência baseada na indicação do medicamento — o Wegovy para obesidade e o Ozempic para diabetes —, mas não há confirmação de qual dose cada pessoa estava realmente usando”, afirma.

    O endocrinologista também chama atenção para possíveis diferenças entre os perfis dos pacientes analisados. Pessoas que usam agonistas de GLP-1, explica ele, costumam ter mais fatores de risco metabólicos e cardiovasculares, condições que, por si só, também podem estar associadas ao desenvolvimento da neuropatia óptica isquêmica.

    Um dado considerado interessante pelo especialista é o fato de não haver notificações associadas ao uso de Rybelsus, a versão oral da semaglutida. “Isso levanta a hipótese de que a via de administração possa ter algum papel, mas ainda é cedo para afirmar”, diz.

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    Apesar das incertezas, Miranda ressalta que os estudos publicados até agora sugerem que, se o risco existir, ele é baixo em termos absolutos.

    “Quando olhamos o risco absoluto desse evento, ele parece ser pequeno e inferior aos benefícios já demonstrados dessas medicações, como proteção cardiovascular, renal, hepática e melhora metabólica”, observa.

    O que diz a Novo Nordisk?

    Procurada pela reportagem, a farmacêutica Novo Nordisk afirmou que acompanha notificações de eventos adversos relacionados aos medicamentos à base de semaglutida e que a segurança dos pacientes é monitorada continuamente.

    A empresa também destacou que, em junho de 2025, o comitê de farmacovigilância da Agência Europeia de Medicamentos (EMA) recomendou a atualização das bulas de Ozempic, Rybelsus e Wegovy para incluir a neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica como um possível efeito adverso. Segundo a agência, trata-se de um evento muito raro, que pode ocorrer em até 1 a cada 10 mil pacientes.

    Em nota, a companhia afirmou ainda que, considerando os dados de estudos clínicos e de farmacovigilância, entende que o perfil benefício-risco da semaglutida permanece favorável.



    FONTE: Meio e Saúde

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    meioesaude
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