José Wilson Andrade, vice-presidente da Associação Pan-Americana de Medicina Canabinoide, conta que estudos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontaram que 72% dos brasileiros sofrem de doenças relacionadas ao sono, entre elas, a insônia. Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) calculam que 13,6 milhões de caixas de Zolpidem foram vendidas em 2018. Dois anos depois, em 2020, esse número saltou para 23 milhões. Desde então, essas estatísticas nunca ficaram abaixo dos 20 milhões anuais.
Segundo o médico, esse fármaco é eficiente no seu propósito, no entanto, causa tolerância e dependência. “Com o tempo são necessárias doses maiores para atingir o mesmo efeito e não podem ser suspensas repentinamente devido ao risco de síndrome de abstinência. O uso de canabinoides no desmame de indutores do sono tem se mostrado muito eficaz. Quando não conseguimos substituir completamente o Zolpidem por canabinoides, é possível reduzir sensivelmente a dosagem usada”, explica.
Cannabis Medicinal pode ajudar na melhora da qualidade do sono
De acordo com José Wilson, o sono é uma função fisiológica intimamente ligada ao sistema endocanabinoide, essencial para a recuperação física e neurológica. Ele é dividido em sono não REM (movimento rápido dos olhos, traduzido do inglês) e sono REM. O sono não REM possui quatro fases. A primeira fase é a transição entre a vigília e o sono. A segunda fase marca o início de um sono leve, superficial. Na sequência, é diminuída a atividade cerebral e entramos na terceira fase, iniciando o sono profundo, intensificado na próxima etapa, momento em que ocorre liberação de vários hormônios.
O médico pontua que ao entrar na fase REM, a atividade cerebral começa a acelerar, tornando-se intensa. Isso se assemelha ao período que estamos acordados. Nesta fase acontecem os sonhos, a fixação da memória e o descanso profundo, fundamental na recuperação da energia física para a pessoa poder acordar disposta. “Os canabinoides agem em várias fases. O THC em baixas doses
funciona como um excelente indutor do sono. O CBD tem o potencial de aumentar a duração e diminuir as interrupções da fase REM. O Canabinol (CBN) é um canabinoide que vem despertando muito interesse pelo seu potencial sedativo e impacto na qualidade do sono”, esclarece.
Um estudo realizado na Universidade de Haifa, em Israel, associou o uso da Cannabis a melhorias no sono em pacientes com transtorno do estresse pós-traumático (TEPT). José Wilson destaca que as evidências clínicas do impacto de canabinoides na qualidade do sono são abundantes. O especialista comenta que os problemas do sono podem ser sintomas associados a outras doenças, como TEPT, fibromialgia, transtornos ansiosos. Ele salienta que os canabinoides têm o potencial de tratar não apenas o distúrbio do sono, mas, também, as patologias de base, quando presentes. “Contamos com a segurança terapêutica na ausência de dependência e tolerância. É primordial que o distúrbio do sono seja cuidadosamente avaliado para a correta escolha de fitocanabinoides e posologia, visando o melhor resultado”, ressalta.
