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    Home»Obesidade»Brasil saiu do Mapa da Fome, mas ainda enfrenta muitos desafios nessa área | Balanço Social
    Obesidade

    Brasil saiu do Mapa da Fome, mas ainda enfrenta muitos desafios nessa área | Balanço Social

    meioesaudeBy meioesaude1 de Julho, 2026Sem comentários8 Mins Read
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    Ler Resumo

    Brasil saiu do Mapa da Fome em 2025, mas enfrenta novo desafio: a explosão da obesidade, impulsionada por ultraprocessados. É o “efeito gangorra”, com taxas crescentes em adultos e crianças. O artigo discute políticas públicas urgentes e a resistência da indústria, evidenciando a complexidade de garantir alimentação saudável para todos.

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    Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

    Em 2025, o país saiu novamente do Mapa da Fome. Uma conquista histórica. Enquanto os indicadores de subnutrição regrediram, os de sobrepeso e obesidade, no entanto, aumentaram, impulsionados pelo alto consumo de ultraprocessados.

    “É o efeito gangorra: cai de um lado, sobe do outro”, resumiu o economista Walter Belik, diretor-adjunto do Instituto Fome Zero, em sua participação numa das mesas do 7º Fórum de Políticas Públicas da Saúde na Infância, promovido no final do ano passado pelo Infinis – Instituto Futuro é Infância Saudável, cujo tema foi segurança alimentar.

    Segundo ele, isso vem acontecendo não só no Brasil, mas também em outros países em desenvolvimento, como a China, que conseguiu reduzir a subnutrição a níveis irrisórios, mas a obesidade cresceu de forma exponencial.

    Hoje, a má alimentação é um dos problemas mais graves de saúde pública no país. “A obesidade precisa ser enfrentada e trabalhada com políticas públicas da mesma forma que fizemos com a fome”, reconhece Lilian dos Santos Rahal, secretária nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, em entrevista exclusiva à coluna.

    O enfrentamento, no entanto, é complexo. “Ninguém questiona quando a gente fala que precisa acabar com a fome. Mas em relação à obesidade muitos dizem que não é um problema de política pública e, sim, de cada um”, diz. “Não dá para enfrentar a obesidade culpabilizando os indivíduos.”

    OBESIDADE EM ALTA

    Entre 2006 e 2024, o número de adultos brasileiros com obesidade cresceu 118%, passando de 11,8% para 25,7%, segundo dados da pesquisa Vigitel 2025 (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), divulgada no início deste ano.

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    Entre as crianças, o cenário é especialmente preocupante. A porcentagem de meninos e meninas de até 5 anos com sobrepeso quase dobrou de 2000 a 2024, passando de 6,1% para 10,9%.

    Em 2025, pela primeira vez na história, a porcentagem de crianças e adolescentes obesos no mundo superou a de subnutridos, segundo relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

    O Brasil segue a tendência mundial. Em 2025, o percentual de crianças e adolescentes de 0 a 19 anos obesos foi de 4,9%. Já o percentual de magros ou muito magros atingiu 4,2%.

    Nos supermercados, metrô, bancas de jornal e cantinas escolares, a disponibilidade de ultraprocessados chama a atenção, assim como a alta do consumo e o tamanho exagerado das porções e embalagens.

    A participação de ultraprocessados na alimentação dos brasileiros mais que dobrou desde os anos 1980, passando de 10% para 23%, segundo coletânea publicada na revista Lancet, no final do ano passado.

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    O ENFRENTAMENTO DA FOME E DA OBESIDADE

     O fato de o Brasil ter saído do Mapa da Fome não significa que o problema foi totalmente resolvido e que não há mais fome no país. A porcentagem de brasileiros subnutridos hoje é menor que 2,5%. Ou seja, avançamos muito, mas o desafio ainda persiste. “Não podemos descuidar da fome nunca”, diz a secretária nacional de Segurança Alimentar e Nutricional.

    Segundo ela, só chegamos a esse resultado graças a um conjunto de políticas e de ações, como o redesenho do Bolsa Família. “Quando o programa volta a olhar a composição familiar e retoma os repasses adicionais de acordo com as características da família, há um impacto muito grande na redução da desnutrição”, avalia. “Isso acontece não só porque você está transferindo renda, mas também porque há uma condicionalidade de saúde do programa que é o acompanhamento nutricional.”

    Outra ação muito importante, tanto para o enfrentamento da fome quanto do sobrepeso e da obesidade, é a alimentação escolar. O Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) atende a cerca de 40 milhões de estudantes de instituições públicas, da creche ao ensino médio. A alimentação é acompanhada por nutricionistas e fiscalizada pelos Conselhos de Alimentação Escolar.

    No ano passado, o governo federal reduziu o limite de alimentos processados e ultraprocessados no cardápio das escolas públicas brasileiras por meio da Resolução CD/FNDE nº 3/2025. O novo texto determinou que, a partir deste ano, no mínimo 85% dos recursos sejam destinados à aquisição de alimentos in natura ou minimamente processados e, no máximo, 10% para a compra de alimentos processados e ultraprocessados. Também recomendou que alimentos que façam uso de rotulagem nutricional frontal de alto conteúdo não sejam adquiridos. Medidas importantes que devem ter impacto num futuro próximo.

    As escolas são um lugar estratégico para melhorar a alimentação de crianças e adolescentes. Mais de 90% das escolas privadas contam com cantinas. Na rede pública esse índice é de 21,6%. Os ultraprocessados são mais da metade dos campeões de venda das cantinas brasileiras, com destaque para refrigerantes e salgados, segundo a Pesquisa Comercialização de Alimentos em Escolas Brasileiras (Caeb) mais recente (2022-2024). Na maioria da escolas (51,9%) esses produtos custam, em média, menos que os outros alimentos.

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    Para enfrentar esse problema, em dezembro de 2023, o governo federal publicou o Decreto nº 11.821/2023, que estabeleceu uma diretriz nacional para a promoção da alimentação saudável nas escolas, com eixos como educação alimentar e nutricional e regulação da oferta e da propaganda nas escolas de produtos ultraprocessados dirigida ao público infantil.

    A partir do decreto, estados e municípios vêm avançando, aos poucos, nesse sentido. Até maio de 2026, segundo balanço da Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sesan), nove leis municipais e estaduais foram aprovadas — Amapá, Aracaju (SE), Campina Grande (PB), Ceará, Franca (SP), Macapá (AP), Paulista (PE), Rio Branco (AC) e Viçosa (MG) –, dois decretos estaduais foram publicados, um no Ceará e outro no Maranhão, com prazos para a adequação e previsão da implementação da lei; 16 projetos de lei estão em tramitação nas casas legislativas locais e outros dois em elaboração.

    Como já era de se esperar, a resistência da indústria de alimentos a essas ações tem sido proporcional aos progressos. “No Ceará, uma pessoa da indústria do estado falou, num momento de sincericídio, que não era justo querer regular a oferta justamente nessa faixa etária, em que se cria os hábitos alimentares”, conta a secretária, citando um relato que ouviu do deputado estadual Renato Roseno (PSOL-CE), um dos autores da Lei nº 19.455/2025, que determinou a exclusão gradual de alimentos ultraprocessados e açucarados de todas as escolas públicas e particulares do Ceará, estabelecendo o ano de 2027 como prazo limite para a eliminação total desses itens. “A indústria tem muita clareza que é essa faixa etária que eles têm que mirar para poder criar os hábitos alimentares”, lamenta Lilian Rahal.

    Por enquanto, não há ainda uma regulação nacional nesse sentido. O decreto federal dá as diretrizes para a promoção da alimentação saudável nas escolas, mas não obriga ninguém a cumpri-las. Para isso, é preciso que haja uma lei federal. Já existem, no entanto, projetos nesse sentido tramitando no Congresso Nacional, como o PL nº 4.501, de 2020, que proíbe a comercialização, propaganda, publicidade e promoção comercial de alimentos e bebidas ultraprocessados e uso de frituras e gordura trans em escolas públicas e privadas, em âmbito nacional.

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    AS CESTAS VERDES

    Pouco divulgada, a compra de cestas básicas da agricultura familiar pelos municípios para doações a escolas, creches, rede socioassistencial e para famílias em situação de vulnerabilidade ou risco de desnutrição é outra estratégia que tem sido fundamental para melhorar a alimentação no país.

    “Muitos municípios usam esses recursos do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) para montar cestas verdes”, relata a secretária, citando o exemplo de Birigui (SP), que doa cerca de mil cestas a famílias em risco nutricional. A estratégia também vem sendo usada em comunidades indígenas, por exemplo, que vendem e recebem doações de alimentos e, hoje, são as populações mais vulneráveis à insegurança alimentar.

    A alimentação é um direito humano fundamental. “Os fatores que levam à fome são os mesmos que levam ao excesso de peso, à obesidade: falta de alimento saudável, situações de pobreza em que mães solo, de periferias, trabalham longas horas e não têm tempo de cozinhar – e na comunidade só se vende alimento ultraprocessado”, disse Stephanie Amaral, oficial de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, durante sua palestra no 7º Fórum de Políticas Públicas da Saúde na Infância. Enfrentar esse cenário é cada dia mais urgente.

    * Jornalista e diretora da Cross Content Comunicação. Há mais de três décadas escreve sobre temas como educação, direitos da infância e da adolescência, direitos da mulher e terceiro setor. Com mais de uma dezena de prêmios nacionais e internacionais, já publicou diversos livros sobre educação, trabalho infantil, violência contra a mulher e direitos humanos. Siga a colunista no Instagram.

     





    FONTE: Meio e Saúde

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