Um dia depois de anunciar um pacote de medidas para conter o comércio irregular de canetas antiobesidade à base de semaglutida e tirzepatida, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) participa nesta terça-feira, 7, de uma operação da Polícia Federal (PF) com alvo na importação indevida, produção clandestina, falsificação e comércio irregular de medicamentos para obesidade que têm sido chamados de “canetas emagrecedoras”.
Batizada como Operação Heavy Pen, a ação é realizada em 11 estados e cumpre 45 mandados de busca e apreensão. Estão sendo realizadas ainda, de acordo com a PF, 24 ações de fiscalização em São Paulo, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraná, Roraima, Rio Grande do Norte, Sergipe e Santa Catarina.
“A ação tem como foco o enfrentamento de grupos envolvidos na cadeia ilícita desses produtos, desde a importação fraudulenta até a distribuição e a comercialização irregular de substâncias de uso injetável”, informou, em nota à imprensa, a Polícia Federal.
Essa operação vem na esteira de um plano de ação apresentado nesta segunda-feira, 6, pela Anvisa para coibir a venda indiscriminada de produtos irregulares para perda de peso no Brasil. Em seis eixos, que vão da parceria com agências reguladoras internacionais à aceleração da aprovação do registro de novas canetas contra obesidade com comprovação de segurança e eficácia, a agência está desenhando um pacote de medidas que será discutido na próxima reunião da diretoria, agendada para o dia 15.
Não só o Brasil, mas outros países estão lidando com irregularidades no comércio dos medicamentos injetáveis para obesidade. Por isso, as regras estão sendo endurecidas já a partir da importação dos insumos farmacêuticos ativos (IFAs) utilizados na produção de canetas manipuladas.
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Isso porque a Anvisa detectou que a quantidade que chega ao país supera a demanda do mercado, considerando que a manipulação só é permitida em condições específicas e que os produtos devem ser direcionados para pacientes com indicação e devidamente identificados.
Na prática, o que tem acontecido é a produção em larga escala e, muitas vezes, sem o cumprimento de controle de qualidade nem boas práticas de manipulação e esterilização.
Apenas no segundo semestre do ano passado, foram importados 130 kg de IFAs de agonistas do GLP-1, o que corresponde a 25 milhões de doses do medicamento.
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Na operação desta terça-feira, além de produtos com os princípios ativos do Ozempic e Wegovy (semaglutida) e do Mounjaro (tirzepatida), está sendo verificada a presença de formulações com retatrutida, substância ainda em estudo e que não tem autorização para comercialização nem uso.
Os agentes estão fiscalizando farmácias de manipulação, clínicas estéticas e estabelecimentos que não cumprem a regulação sanitária, cometendo infrações como fracionamento das doses e venda de produtos sem registro da Anvisa ou de origem desconhecida.
“As condutas investigadas podem caracterizar crimes relacionados à falsificação e à comercialização irregular de medicamentos, além de contrabando”, explicou a PF.
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Riscos das ‘canetas emagrecedoras’ irregulares
Pessoas que utilizam esses produtos estão colocando a saúde em risco, porque não há garantia de controle de qualidade, da presença em quantidades corretas dos princípios ativos nem que as doses vão cumprir o propósito de reduzir o peso.
Também é importante ressaltar que esses medicamentos devem ser administrados após indicação médica e o tratamento deve ser acompanhado por um especialista que vai dar orientações sobre outras medidas essenciais para tratar a obesidade, como dieta e prática de atividade física.
Os medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida são indicados para pessoas que vivem com obesidade e diabetes. O uso fora das recomendações da bula, conhecido como off-label, também oferece riscos, principalmente de eventos adversos.
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Dados da Anvisa indicam que 26% dos eventos adversos registrados têm relação com o uso off-label. O mais grave é a pancreatite aguda, a inflamação do órgão, que já foi relatada pela Anvisa e pelo governo do Reino Unido.
Aumento nas apreensões
Segundo a Polícia Federal, o número de apreensões de canetas contra a obesidade irregulares tem aumentado ano após ano. Em 2024, foram 609 unidades, quantidade que saltou para 60.787 em 2025. Neste ano, até março, foram 54.577 unidades, quase 90% de todo o montante apreendido no ano passado.
