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O Brasil vive uma complexa contradição na nutrição infantil: o retorno da fome e o acelerado crescimento da obesidade coexistem. O artigo explora desnutrição, baixa estatura, fome oculta e excesso de peso, destacando suas raízes sociais e a persistência de desigualdades. É crucial uma abordagem multissetorial integrada para lidar com essa transição nutricional incompleta e seus impactos devastadores.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
O Brasil vive hoje uma contradição que resume bem a complexidade da nutrição infantil contemporânea: ao mesmo tempo em que dezenas de milhões de pessoas voltaram a conviver com a fome, o país também registra um dos crescimentos mais acelerados de obesidade do mundo.
Desnutrição, fome oculta, baixa estatura e excesso de peso compartilham raízes sociais e podem afetar a mesma criança em diferentes fases, tornando essencial compreender esses indicadores e suas implicações para a saúde pública e a prática médica.
Depois de sair do chamado “Mapa da Fome” da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) em 2014, o Brasil retornou à lista em 2019, refletindo a combinação de recessão econômica, desemprego e desigualdade social que precedeu a pandemia de covid-19. A crise sanitária, que matou quase 800 mil brasileiros, agravou ainda mais o quadro: em 2021, o número de pessoas em situação de fome no mundo chegou a cerca de 828 milhões.
Os dados mais recentes, divulgados pelo IBGE em outubro de 2025 com base na PNAD Contínua de 2024, confirmam uma trajetória de melhora consistente. A proporção de domicílios brasileiros com algum grau de insegurança alimentar recuou de 27,6% em 2023 para 24,2% em 2024. Em números absolutos, isso significa que 18,9 milhões de domicílios ainda conviviam com algum grau de insegurança alimentar em 2024, enquanto a proporção em segurança alimentar plena subiu de 72,4% para 75,8%. Todos os três níveis de gravidade caíram no período: a insegurança leve, de 18,2% para 16,4%; a moderada, de 5,3% para 4,5%; e a grave, quando a fome passa a ser, de fato, uma experiência vivida no domicílio, atingindo também menores de 18 anos, de 4,1% para 3,2%, o equivalente a 2,5 milhões de famílias.
O IBGE aponta desigualdades persistentes: Norte (37,7%) e Nordeste (34,8%) concentram os maiores índices de insegurança alimentar, com taxas graves de 6,3% e 4,8%, quase quatro vezes a do Sul (1,7%). A insegurança alimentar também é maior em áreas rurais (31,3%) do que urbanas (23,2%), em lares chefiados por mulheres (59,9% dos casos) e por responsáveis pretos ou pardos, e está fortemente concentrada em domicílios de baixíssima renda: dois em cada três lares com renda per capita de até um salário-mínimo estavam em insegurança alimentar, respondendo por 71,9% de todos os casos moderados ou graves do país.
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Na pediatria, destaca-se que a insegurança alimentar grave é maior entre crianças: em 2024, 3,3% das de 0 a 4 anos e 3,8% das de 5 a 17 anos viviam em domicílios nessa condição, contra 2,3% dos idosos. A infância permanece como a faixa mais vulnerável, reforçando a necessidade de políticas voltadas à primeira infância.
Problema complexo, solução complexa
Avaliar a nutrição de uma criança não se resume a saber se ela está “gorda” ou “magra”. Existem, pelo menos, quatro indicadores complementares, cada um capturando uma dimensão distinta do problema nutricional e frequentemente coexistindo na mesma população, e até no mesmo indivíduo ao longo do tempo.
Desnutrição (baixo peso e emaciação/wasting): é o déficit de peso em relação à altura ou à idade, refletindo privação calórico-proteica aguda ou recente. É o indicador mais sensível a crises agudas (fome súbita, epidemias e choques econômicos).
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Baixa estatura nutricional (stunting): diferente da emaciação, a baixa estatura reflete desnutrição crônica acumulada, geralmente originada ainda na gestação ou nos primeiros dois anos de vida (os chamados “primeiros 1. 000 dias”). É um dano de difícil reversão: a criança não recupera plenamente a altura perdida.
Fome oculta (carências de micronutrientes): também chamada de malnutrição silenciosa, a fome oculta ocorre quando a criança recebe calorias suficientes, às vezes em excesso, mas carece de vitaminas e minerais essenciais, como ferro, zinco e vitamina D. É consequência direta da baixa qualidade da dieta: introdução precoce de leite de vaca in natura, substituindo o aleitamento materno, e consumo elevado de açúcar de adição, doces, biscoitos e produtos inadequados, desde os primeiros meses de vida.
Sobrepeso e obesidade: o extremo oposto do espectro, hoje o problema de crescimento mais acelerado entre crianças e adolescentes brasileiros. Em 2024, estima-se que 34% das crianças e adolescentes brasileiros (15,58 milhões) apresentem excesso de peso, dos quais 3,1 milhões já evoluíram para obesidade.
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Para o gestor de saúde pública, a dupla ou tripla carga de má nutrição (desnutrição coexistindo com excesso de peso e carência de micronutrientes) impõe uma mudança de paradigma: não basta combater a fome nem apenas a obesidade isoladamente, mas atuar simultaneamente sobre os determinantes sociais comuns a ambos os extremos: renda, acesso à educação, qualidade do pré-natal, prevalência e duração do aleitamento materno e qualidade da alimentação complementar.
O pediatra que atua no SUS frequentemente lida com crianças desnutridas, com baixa estatura e com obesidade, muitas vezes na mesma família. As prioridades incluem antropometria contínua e bem interpretada, vigilância de anemia e deficiências de micronutrientes, fortalecimento do pré-natal e do incentivo ao aleitamento materno exclusivo, orientação sobre introdução alimentar (evitando leite de vaca in natura precoce e açúcar de adição) e articulação com a merenda escolar e programas de proteção social, como o Bolsa Família, que segundo dados do SISVAN esteve associado a tendências mais favoráveis de peso em lactentes e pré-escolares beneficiários.
O desafio do pediatra e do nutrólogo aqui é reconhecer que uma criança com peso “normal” ou mesmo magra pode ter deficiências de ferro, zinco ou vitamina D, e que o sobrepeso já está presente em famílias de alto poder aquisitivo desde os primeiros anos de vida. O cuidado da criança ou adolescente com obesidade exige também atenção a aspectos psicossociais, a relação entre restrição alimentar e prazer, a aceitação de uma dieta menos calórica, a socialização e a prática de atividade física como hábito prazeroso, não punitivo.
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Em todos os contextos, a resposta clínica isolada é insuficiente. Como destaca a literatura revisada, a prevenção eficaz exige ação multissetorial, envolvendo indivíduo, família, sociedade, governo e indústria de alimentos, com políticas de regulação de marketing infantil, rotulagem nutricional, tributação de ultraprocessados e bebidas açucaradas e fortalecimento da alimentação escolar, sempre fundamentadas em evidência científica e não em modismos.
Pensando em como transportar a retórica para a prática clínica, durante o 8º Congresso Internacional Sabará-Pensi de Saúde Infantil, que acontece entre os dias 1 e 3 de outubro em São Paulo, haverá um dia dedicado às discussões sobre como a insegurança alimentar pode ser avaliada diretamente nos consultórios pediátricos, inclusive com participação de convidados internacionais.
As discussões são inúmeras e o cenário segue complexo. O Brasil enfrenta hoje um momento de transição nutricional incompleta: ainda não resolveu o problema da fome e da desnutrição, mas já consolidou uma epidemia de obesidade infantil. Os quatro indicadores (desnutrição, baixa estatura, fome oculta e excesso de peso) exigem, juntos, uma resposta integrada que comece nos primeiros 1. 000 dias de vida e que reconheça que a recuperação econômica, por si só, não garante segurança alimentar e nutricional sem políticas específicas voltadas à qualidade, e não apenas à quantidade da alimentação infantil.
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*Mauro Fisberg é pediatra e nutrólogo e coordenador do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (Cenda) do Instituto Pensi e Sabará Hospital Infantil
