O fim da patente da semaglutida no Brasil marca uma mudança importante no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Pela primeira vez, abre-se a possibilidade de ampliar o acesso a uma classe de medicamentos que mudou o patamar da medicina metabólica nos últimos anos. Em tese, mais gente poderá se beneficiar de uma terapia que antes era limitada pelo custo.
Mas há um ponto essencial que precisa ser dito com clareza: mais acesso não significa, automaticamente, melhor tratamento. E essa é uma reflexão fundamental no dia a dia e que vale ser lembrada em datas como o Dia Mundial da Saúde, celebrada anualmente em 7 de abril.
A semaglutida, conhecida comercialmente como Ozempic (para diabetes) e Wegovy (para obesidade), representa um avanço real. Trata-se de uma medicação capaz de atuar diretamente no sistema que regula fome, saciedade e metabolismo, com resultados que, em muitos casos, se aproximam de intervenções mais invasivas. Isso explica por que o entusiasmo em torno das chamadas “canetas emagrecedoras” cresceu tanto.
O problema é que o debate público passou a tratar esse avanço como se fosse uma solução simples. Só que não é. Na prática clínica, o erro mais comum é enxergar a medicação como um atalho.
O paciente usa por alguns meses, muitas vezes sem acompanhamento adequado, ajusta a dose por conta própria ou segue orientações informais. Quando o resultado não se sustenta, abandona o tratamento. O que acontece depois é previsível: o peso volta, frequentemente em um ritmo acelerado, e a frustração se instala.
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Isso não é falha do paciente. É uma leitura equivocada do que esse tipo de tratamento exige. A obesidade não é um evento pontual. É uma condição que envolve alterações metabólicas complexas e que precisa ser acompanhada ao longo do tempo. Quando uma medicação como a semaglutida entra nesse contexto, ela funciona como uma ferramenta poderosa, mas não como solução isolada.
O melhor resultado não vem apenas da prescrição. Vem da combinação entre medicação, acompanhamento médico, ajuste de rotina, alimentação e atividade física. Sem isso, o tratamento perde consistência.
Com a ampliação do acesso, o Brasil tem diante de si uma oportunidade relevante. Mais pacientes poderão iniciar um tratamento que antes era inviável financeiramente. Mas essa expansão também traz um risco: o de repetir, em escala maior, os mesmos erros que já vemos hoje.
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A discussão, portanto, não deveria ser apenas sobre quantas pessoas terão acesso à medicação, mas sobre quantas terão acesso ao tratamento correto.
Se bem conduzida, essa nova fase pode representar um avanço importante na forma como lidamos com obesidade e saúde metabólica. Se mal interpretada, pode reforçar a ideia de que existe solução rápida para um problema que, por definição, exige continuidade.
A semaglutida é, sem dúvida, uma das maiores evoluções recentes da medicina. Mas ela não substitui o que sempre foi essencial: acompanhamento, consistência e responsabilidade no cuidado com a saúde.
*Leonardo Fiuza é médico cirurgião geral, especialista em tratamento de obesidade de forma cirúrgica e clinica, além de fundador e CEO do Grupo Wissen e Clínica Wissence
