Uma pesquisa da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP) evidenciou que, após uma parada cardiorrespiratória, a chance que a vítima tem de se salvar será reduzida a zero por um detalhe: 44% dos entrevistados não sabiam o telefone do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), o 192, ligação gratuita feita de qualquer dispositivo.
De acordo com o levantamento, 14% não têm ideia de para onde ligar e 30% tentariam o número errado. A pesquisa ouviu 1.765 entrevistados, sendo 56,6% mulheres e 43,4% homens, nas cidades de Araçatuba, Araras, Bauru, Marília, Presidente Prudente, Santos, São José do Rio Preto, Vale do Paraíba e na capital paulista.
A American Heart Association (AHA) determinou outubro como o mês da ressuscitação cardiopulmonar (RCP). A RCP são compressões feitas com as mãos no tórax de quem sofreu a parada, com o objetivo de manter a circulação sanguínea e a oxigenação dos órgãos. Pessoas devidamente habilitadas podem realizar as manobras enquanto o socorro não vem. Em um país como o Brasil, onde ocorrem 720 desses eventos cardiorrespiratórios por dia – e menos de 2% chegam com vida aos hospitais – quanto mais treinados atuantes, menos mortalidade.
Credenciada pela AHA para ministrar cursos de Suporte Básico de Vida (BLS) e Suporte Avançado de Vida em Cardiologia (ACLS) no Brasil, a SOCESP reitera a necessidade de cada vez mais voluntários que reconheçam os sintomas e estejam aptos a agir. A maioria da população — incluindo crianças — pode aprender RCP que, quando realizada em até cinco minutos após o mal súbito, permite uma taxa de sobrevida entre 50% e 70%. Em contrapartida, a cada minuto sem atendimento, a vítima perde de 7% a 10% da chance de permanecer viva.
Em 2023, a SOCESP realizou mutirão em Araras (SP) com cerca de quatro mil crianças e adolescentes. O grupo treinou em bonecos reciclados, feitos de forma artesanal pelos próprios estudantes com suporte da entidade. Araras é a primeira cidade paulista com legislação específica para o ensino de RCP em escolas públicas e particulares.
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Cidade modelo
Em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, o Projeto de reanimação cardiopulmonar Cor+Ação quer tornar a cidade um modelo na prevenção e tratamento de doenças cardiovasculares (DCVs) e paradas cardíacas. Criado pela ONG Salva Coração – em parceria com a prefeitura municipal e apoio da SOCESP –, tem como objetivo capacitar um grande número de pessoas em diversos setores.
As manobras de ressuscitação já foram ministradas para servidores municipais e demais colaboradores do serviço público; preparadores físicos e professores de escolas municipais; funcionários de parques, shoppings e motoristas de aplicativos, além da população civil através das ações sociais. Ao todo, são mais de 11 mil pessoas treinadas na cidade. Além disso, em 2023, uma Lei Municipal incluiu a obrigatoriedade do ensino de primeiros socorros na grade curricular das escolas, tornando São José o segundo município neste quesito.
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A cidade já conta também com todo o efetivo da Guarda Municipal e da Mobilidade Urbana treinados para emergência cardiopulmonar e portando desfibriladores em suas viaturas. O Desfibrilador Externo Automático (DEA) é o equipamento usado para tratar arritmias cardíacas potencialmente fatais. Funciona por meio da aplicação de uma descarga elétrica controlada no coração, visando restaurar o ritmo cardíaco normal.
As ações em São José dos Campos já renderam dividendos: antes do projeto, 8% das vítimas pós-evento cardiorrespiratório ingressavam com vida aos hospitais, o que já era bem acima da média nacional, que é de 2%. Atualmente, 28% dos infartados sobrevivem até receberem atendimento formal.
O sucesso do Cor+Ação está motivando outros municípios a adotarem as mesmas práticas. É o caso de São José do Rio Preto e de Araras, citados acima. A SOCESP, por sua vez, está disseminando os bons resultados em suas regionais e pretende apresentar projeto similar à Prefeitura de São Paulo.
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“Seattle brasileira”
Apesar dos números promissores, São José dos Campos quer ir adiante e, para isso, se espelha em Seattle, cidade norte-americana reconhecida como líder nacional em sobrevivência a paradas cardíacas fora do hospital: dados recentes apontam que a taxa chega a 62%, enquanto a média nos Estados Unidos fica entre 8% e 10%. Os altos índices refletem anos de investimento em programas comunitários de RCP, acesso público a desfibrilador e o sistema de resposta precoce a emergências.
O exemplo de Seattle mostra que o caminho para diminuir fatalidades cardíacas passa obrigatoriamente pelas manobras de ressuscitação e pela proatividade de atendimento. Ter alguém pronto a fazer o procedimento ou mesmo chamar socorro médico tende a fazer a diferença entre viver e morrer. Por isso, investir em conscientização e treinamento é a condição para o aumento exponencial deste “exército do bem”. E isso deve ser tão sério quanto emocionante: manter o coração de um semelhante pulsando pode estar, literalmente, em nossas mãos.
Pedro Duccini é cardiologista e assessor científico da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP). Agnaldo Piscopo é cardiologista e diretor da SOCESP.
