Muitos profissionais não médicos têm oferecido procedimentos estéticos, resultando em um alto índice de complicações, conforme mostra estudo brasileiro publicado no periódico científico Dermatologic Surgery.
Quase 13% dos pacientes dos médicos entrevistados já se submeteram a procedimentos realizados por não médicos. Por volta de 90% relataram atender até 15 pacientes mensais com complicações como cicatrizes, inflamações, infecções e necroses. São, em média, cinco por mês, e cerca de 17% resultam em sequelas permanentes.
Além do aumento da demanda, a falta de regulamentação adequada também favorece a oferta de procedimentos invasivos por pessoas sem formação médica. Brechas na lei do ato médico permitem que conselhos criem observações que legitimam a atuação de profissionais sem preparo.
Dos 1.058 médicos entrevistados no estudo, 51,6% atendem mais de 100 pacientes por mês e 29,9% cuidam de mais de 150. Do total de pacientes, 12,7% já se submeteram a procedimentos estéticos com não médicos, incluindo dentistas, biomédicos, esteticistas, fisioterapeutas, farmacêuticos, enfermeiros e até pessoas sem formação na área de saúde.
Entre os fatores que levam a essa escolha estão menor custo, ampla divulgação em redes sociais e desconhecimento dos riscos. Muitos pacientes subestimam a complexidade anatômica e não entendem que mesmo procedimentos minimamente invasivos podem causar complicações severas quando realizados por pessoas sem formação.
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Diversos procedimentos apresentam riscos quando realizados incorretamente, com destaque para os preenchimentos injetáveis, pela possibilidade de cegueira e necroses, e as cirurgias. Também existe alto risco de contaminação por micobactéria, muitas vezes desconhecido por não médicos. O número de complicações por fios de PDO também é grande.
Complicações podem ocorrer com qualquer profissional, mas a diferença está na capacidade de reconhecer e manejar essas intercorrências. O médico tem preparo e respaldo legal para agir com rapidez e eficácia.
A questão não é a disputa entre categorias, mas reconhecer limites de atuação de cada formação que, quando ultrapassados, colocam a segurança do paciente em risco, com impactos muitas vezes evitáveis no consultório.
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Quando um paciente chega com uma complicação, o acolhimento é o primeiro passo. Depois é preciso entender o diagnóstico e definir a conduta. O manejo depende da natureza e gravidade do quadro, podendo requerer apenas suporte clínico e antibióticos em casos leves ou, em casos mais graves, intervenções com hialuronidase, corticosteroides, anticoagulantes, internação hospitalar e até cirurgias reparadoras. Mas o desfecho nem sempre é esteticamente satisfatório, com sequelas permanentes.
Para resolver as complicações, os médicos do estudo relataram a necessidade de acompanhamento prolongado, com média de sete a oito consultas anuais, podendo chegar a 12, e até quatro cirurgias por paciente.
Esse é o primeiro estudo de grande abrangência nacional sobre a prática inadequada de procedimentos estéticos no Brasil. E os resultados mostram uma situação preocupante, com muitos pacientes sofrendo complicações e um alto custo para o sistema de saúde.
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São necessárias regras mais claras, melhor orientação aos pacientes e a criação de um órgão regulatório que atue entre conselhos de classe, definindo e fiscalizando, de acordo com a formação, o que cada profissional pode ou não fazer.
Até lá, pacientes devem redobrar a atenção na hora de escolher onde realizar o procedimento, desconfiando de preços muito baixos, verificando se o local possui alvará sanitário e se o profissional é médico, preferencialmente especialista em dermatologia ou cirurgia plástica.
*Daniel Cassiano é dermatologista diretor da Sociedade Brasileira de Dermatologia – Regional São Paulo (SBD-RESP)
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