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Em uma “disputa” contra a Noruega sobre o tratamento do diabetes, o Brasil enfrenta um placar desfavorável. Enquanto o país nórdico garante acesso a tecnologias e medicamentos com regras claras e um teto de gasto anual, o SUS brasileiro ainda carece de cobertura para inovações e medicamentos essenciais, resultando em um sistema desigual e muitas vezes dependente de ações judiciais.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Enquanto a Copa do Mundo movimenta bandeiras, torcidas e apostas, existe uma disputa bem menos festejada em que o Brasil também entra em campo contra uma seleção improvável: a Noruega. Mas agora não falamos de futebol. Falamos sobre quem tem mais chances de viver bem com diabetes. E, nesse jogo, estamos perdendo de um placar que dói mais do que qualquer pênalti perdido.
Comecemos pelo empate técnico: a oferta de insulina básica. Aqui, a Lei 11.347/2006 garante insulina, tiras e agulhas pelo SUS — um gol que o Brasil marcou cedo e que poucos países latino-americanos repetem. Na Noruega, o mesmo se resolve pela “receita azul”, com coparticipação de 60% limitada a um teto anual de cerca de R$ 1.740 — depois disso, o paciente não paga mais nada, nem pela insulina, nem por nenhuma outra doença crônica, pelo resto do ano. Aqui o sistema nem sempre garante o produto na prateleira da farmácia perto de casa, e a régua de gasto máximo simplesmente não existe.
O primeiro gol de diferença aparece na tecnologia. Na Noruega, sensor de glicose e bomba de insulina não passam pela farmácia — são fornecidos gratuitamente pelo hospital, como equipamento emprestado ao paciente, com orientação oficial de que praticamente todo paciente com diabetes tipo 1 deveria ao menos ser avaliado para o uso.
No Brasil, o SUS ainda não garante nada disso: existe apenas um projeto de lei, o PL 2027/2026, propondo obrigar a distribuição gratuita — em tramitação, não em vigor. Quem tem diabetes tipo 1 e quer sensor ou bomba depende do próprio bolso, de um plano de saúde ou da Justiça: em março, o STJ finalmente pacificou (Tema 1.316) os critérios para obrigar operadoras a cobrir bomba e sensor — uma vitória que também expõe o problema: precisamos de um tribunal para garantir o que, na Noruega, é rotina hospitalar sem debate.
O segundo gol de diferença é o mais espinhoso da minha pauta nos últimos meses: os agonistas de GLP-1 e GIP. Sim, a categoria das canetas para tratar o diabetes e a obesidade. A Noruega restringiu bastante o Ozempic — desde julho de 2024 exige autorização individual mesmo para quem tem diabetes tipo 2, depois de descobrir que a semaglutida sozinha consumia quase 10% do orçamento de medicamentos do país.
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É um controle rígido, mas dentro do sistema: quem tem diabetes tipo 2 documentada, em uso combinado com metformina ou insulina, consegue o remédio com a mesma coparticipação de 60%, limitada aos mesmos R$ 1.740 anuais. Já a tirzepatida (Mounjaro) não tem reembolso nenhum lá, nem para diabetes, nem para obesidade — todos pagam o preço de tabela, entre R$ 1.200 e R$ 3.000 por mês.
No Brasil, a régua é mais curta ainda: nenhum agonista de GLP-1 está incorporado ao SUS — nem para diabetes tipo 2 refratário, nem para obesidade. A Conitec rejeitou a semaglutida para obesidade em 2025; o Ministério da Saúde só anunciou, em junho, um projeto-piloto, ainda sem alcance nacional. Quem não tem plano particular — ou seja, a maioria de quem mais precisa — compra no varejo, no mesmo mercado onde prosperam as canetas falsificadas vindas do Paraguai que já virou tema aqui.
A Noruega tem fila e burocracia; o Brasil, além de fila e burocracia, tem contrabando.
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Vale reparar também no banco de reservas de cada seleção. Na Noruega, o setor privado existe, mas é reserva de luxo, não um time paralelo: a maior parte dos especialistas “particulares” continua sendo paga pelo sistema público, e o paciente com diabetes tipo 2 tem o mesmo reembolso independentemente de onde é atendido. No Brasil, público e privado jogam campeonatos diferentes: quem tem plano de saúde bom consegue sensor, bomba e, cada vez mais, até GLP-1 via liminar; quem depende só do SUS assiste ao jogo pela grade da arquibancada.
Se eu fosse resumir a diferença estrutural: os dois países racionam remédio caro — nenhum sistema de saúde do planeta tem orçamento infinito, e a Noruega mostra isso sem pudor. A diferença é quem carrega o peso da escassez. Lá, o racionamento é centralizado, público, com regra escrita e teto de gasto conhecido por todos, rico ou pobre. Aqui, ele acontece de um jeito mais silencioso e mais desigual: quem tem um bom plano recorre à Justiça, quem tem dinheiro paga do bolso, quem não tem nenhum dos dois fica de fora — ou vai atrás de uma opção mais barata e mais arriscada, às vezes literalmente contrabandeada.
Não escrevo isso para bater continência à Noruega — o país também discute fila, também erra, também briga internamente sobre até onde vai o reembolso das canetas emagrecedoras, e o debate sobre Wegovy por lá segue empacado no orçamento. Escrevo porque a comparação expõe uma escolha que ainda não fizemos como país: decidir, de forma explícita, pública e pactuada, o que o SUS paga, para quem e com que critério — em vez de deixar essa decisão ao acaso de quem consegue um bom advogado ou um bom convênio.
O Brasil sabe jogar bonito. Fomos, somos e seguiremos sendo o país do futebol de qualidade. Mas no diabetes ainda estamos treinando como amadores.
