Março Azul é o mês da conscientização ao câncer de intestino, o terceiro tipo mais comum no Brasil. Conhecido também como câncer colorretal ou do cólon e reto, ele abrange os tumores que se iniciam na parte do intestino grosso (cólon), no reto (final do intestino) e no ânus. Segundo estimativas feitas pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil deve registrar, aproximadamente, 45 mil novos casos da doença ao ano, no triênio compreendido entre 2023 e 2025. Chama a atenção que 70% estarão concentrados nas regiões Sudeste e Sul. Cerca de 23.660 casos devem ser diagnosticados nas mulheres e 21.970 nos homens.
A presença de sangue nas fezes, dor e cólica abdominal frequente com mais de 30 dias de duração, alteração no ritmo intestinal como diarreia ou constipação, emagrecimento rápido e não intencional, além de anemia, cansaço e fraqueza são os sinais e sintomas mais comuns. São fatores de risco o sedentarismo; sobrepeso; alimentação pobre em fibras e rica em carnes vermelhas; carnes processadas; tabagismo e alcoolismo. A idade também aumenta a chance do aparecimento de tumores nessa região, sendo mais comum em pessoas com mais de 50 anos. Há casos, ainda, associados à hereditariedade, identificados quando existe um histórico familiar. O principal exame de rastreio é a colonoscopia, pois é fundamental para auxiliar tanto no diagnóstico precoce como na detecção de lesões pré-malignas no intestino.
Uso da Cannabis Medicinal no tratamento
Conforme o médico José Wilson Andrade, vice-presidente da Associação Pan-Americana de Medicina Canabinoide, a utilização de canabinoides tem grande impacto na qualidade de vida do paciente com câncer colorretal. Ele diz que os efeitos colaterais do tratamento quimioterápico como perda de peso, náusea, vômitos e dor neuropática respondem bem à terapia com canabinoides, principalmente a combinação entre THC e CBD, já que existe ganho em relação ao controle de ansiedade, depressão e qualidade do sono, queixas frequentes dos pacientes. “Porém, é imprescindível avaliar a interação medicamentosa entre os canabinoides e outros fármacos, pois em alguns casos a incompatibilidades entre ambos podem impedir o uso”, alerta.
Pesquisa
Estudo da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, mostrou que o canabidiol pode evitar que o câncer colorretal cresça e que as células cancerígenas se reproduzam. O médico comenta que a atividade antitumoral dos canabinoides é alvo de muitos estudos científicos. O especialista conta que a capacidade de inibir a neoangiogênese, que é a formação de novos vasos sanguíneos necessários para alimentar o tumor primário ou metástases, já foi demonstrada. A indução da apoptose (morte celular programada), também foi comprovada com o uso de canabinoides. Além disso, eles interagem com receptores no núcleo da célula, tendo impacto na transcrição genética, onde mutações podem ser a origem do câncer. “Existem vários tipos (fenótipos de células neoplásicas) de câncer colorretal e são necessários estudos específicos com cada um para validar esses efeitos”, ressalta.
Atuação do sistema endocanabinoide no intestino
De acordo com José Wilson, nosso intestino apresenta uma extensa rede de neurônios (sistema nervoso entérico) chamada de “segundo cérebro”. O médico explica que o cérebro e o intestino trocam informações. Eles modulam suas atividades, pois grande parte da serotonina e dopamina — neurotransmissores que regulam humor, sono, apetite e outras funções fisiológicas — são produzidos no intestino.
A presença de uma microbiota saudável é essencial para manter este equilíbrio, pois existem dez vezes mais bactérias no intestino do que células em nosso corpo. “O sistema endocanabinoide é amplamente expresso em nosso intestino e diretamente responsável por manter diversas funções como resposta imune, inflamatória, motilidade intestinal, entre outras, em funcionamento harmônico”, aponta.

Benefícios ao sistema intestinal
Para José Wilson, o adequado funcionamento do sistema endocanabinoide é essencial para manter o eixo intestino-cérebro (a comunicação de duas vias que ocorre entre o sistema nervoso central e entérico) salutar. Processos inflamatórios intestinais são comuns e os canabinoides podem modular esse problema. O médico sinaliza que o uso também resulta na manutenção de uma microbiota diversa e saudável, gerando impacto na motilidade intestinal, evitando sintomas de má digestão. “Estudos apontam que várias doenças neuropsiquiátricas, como depressão e Alzheimer, podem ter origem em uma má regulação do eixo intestino-cérebro. A Cannabis apresenta infinitas aplicações em nossa saúde intestinal”, conclui.
