Entretanto, é fundamental passar por uma criteriosa e minuciosa avaliação médica
Segundo José Wilson Andrade, vice-presidente da Associação Pan-Americana de Medicina Canabinoide, a demanda física e psicológica que o atleta de alto rendimento é submetido não é saudável. De acordo com ele, os diagnósticos mais frequentes são ortopédicos, como dor muscular pós-treino, entorses, contusões, concussões, lesões músculo-tendíneas, fraturas e problemas de trato gastrointestinal. Além disso, como aponta o médico, treinos extenuantes podem provocar períodos de isquemia (menor circulação sanguínea) intestinal/gástrica e o retorno da circulação normal acumula toxinas que podem levar a diarreias e vômitos.
José Wilson cita também que problemas psicológicos ou psiquiátricos são comuns, já que o estresse e ansiedade pré-competição acometem a maioria dos atletas, normalmente acompanhados de distúrbios do sono. “O excesso de treinos pode levar a queda na imunidade. Como o período de recuperação precisa ser o mais breve possível, o uso e abuso de medicamentos são frequentes, como anti-inflamatórios (hormonais e não hormonais), analgésicos e ansiolíticos”, afirma.
Cannabis Medicinal
José Wilson destaca que o uso de canabinoides no tratamento visa uma abordagem mais integrativa do atleta-paciente. O médico explica que o canabidiol (CBD) é o princípio ativo da Cannabis, que foi liberado pela Agência Mundial Antidoping (WADA) em 2018. O CBD, mesmo em altas doses, apresenta poucos efeitos colaterais. Ele conta que existem relatos do uso de 1500 miligramas ao dia, bem tolerados, mas é uma dose extremamente alta. “Propriedades do CBD, modulatórias da cascata inflamatória, sistema imune, controle de ansiedade e analgésica, ficam bem para o tratamento dos atletas”, comenta.
No entanto, como ressalta José Wilson, o principal risco que o atleta corre ao usar derivados de Cannabis é decorrente da falta de controle de qualidade dos produtos disponíveis tanto no Brasil como no exterior.

O médico reforça que o tetraidrocanabinol (THC) permanece uma substância proibida pela WADA, no período de competição (23h59 do dia anterior, até o término da competição), ou seja, não é aceita a amostra que detectar traços de THC superiores a 150 nanogramas por mililitro, neste período. “Vários estudos demonstraram que mesmo amostras de CBD Broad Spectrum (livres teoricamente de THC) apresentavam contaminação por THC. É essencial ter certeza da procedência e pureza do derivado a ser utilizado. Passando para os medicamentos clássicos, os anti-inflamatórios causam muitos efeitos colaterais gástricos e renais. Ansiolíticos e analgésicos (principalmente opioides) apresentam grande potencial de adição e, normalmente, prejudicam o desempenho pela sedação”, esclarece.
Sistema endocabinoide
José Wilson lembra que o sistema endocanabinoide é bem-estabelecido na literatura médica e não há dúvidas quanto ao potencial terapêutico do CBD e THC. “Apesar da carência de estudos clínicos em grande escala, duplo-cego e randomizados em relação aos atletas, as evidências clínicas são irrefutáveis”, salienta.
Ele argumenta que existem particularidades de cada atleta e da formulação utilizada que levam a resultados diferentes no uso do CBD, como velocidade de metabolização do CBD, uso simultâneo de outras drogas, via de administração e dose são os principais fatores que influenciam os resultados.
