A vitamina C já virou figurinha carimbada em cremes e séruns para a pele. Um estudo recente, porém, indica que o caminho para melhorar a saúde da pele pode começar antes do creme: no prato. Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Otago observaram que aumentar a ingestão de alimentos ricos em vitamina C eleva a quantidade do nutriente na pele e está associado a sinais de melhora da estrutura e renovação celular.
O trabalho, publicado no Journal of Investigative Dermatology, investigou como a vitamina C circulante no sangue se relaciona com sua concentração nas diferentes camadas da pele e o que acontece quando ocorre a ingestão alimentar desse nutriente. O foco foi o kiwi, conhecido por ser uma das frutas mais ricas em vitamina C.
A vitamina C dentro da pele
Embora o papel da vitamina C na síntese de colágeno já seja bem conhecido, havia até agora pouca evidência direta de como a ingestão alimentar do nutriente se traduz em níveis reais dentro da pele humana. Para preencher essa lacuna, os pesquisadores analisaram amostras de pele e sangue de pessoas saudáveis.
Os resultados mostraram que a vitamina C está presente em todas as camadas da pele, mas não de maneira igual. A camada mais externa, aquela que fica em contato direto com o ambiente, concentra mais vitamina C. Já nas camadas mais profundas, onde a pele é mais espessa, a vitamina aparece em menor quantidade.
Quando os pesquisadores analisaram isso célula por célula, no entanto, o resultado mudou. As células que vivem nas camadas internas da pele, responsáveis por dar sustentação e firmeza ao tecido, acumulam mais vitamina C. Segundo os autores, esse achado é importante porque são essas células que produzem o colágeno, proteína que ajuda a manter a pele mais resistente e estruturada.
Outro achado importante foi a correlação entre os níveis de vitamina C no sangue e na pele. Em outras palavras, quanto maior a disponibilidade do nutriente na circulação, maior tende a ser sua presença nos tecidos cutâneos.
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O que muda quando a vitamina C vem da dieta
Na segunda etapa do estudo, os pesquisadores partiram para a alimentação. Participantes com níveis baixos ou intermediários de vitamina C no sangue passaram a consumir diariamente dois kiwis por oito semanas, o equivalente a cerca de 250 mg de vitamina C por dia – uma quantidade considerada suficiente, do ponto de vista nutricional, para atingir níveis adequados do nutriente no organismo.
Ao final das oito semanas, a quantidade de vitamina C no sangue dos participantes atingiu níveis considerados ideais em boa parte do grupo. O mais importante, de acordo com os pesquisadores, é que esse aumento no sangue se refletiu diretamente na pele.
Os autores observaram mais vitamina C tanto na camada mais externa quanto nas regiões internas do tecido cutâneo. Resumidamente, houve aumento de quase 50% na densidade da pele e de 30% na renovação celular.
Os efeitos também apareceram na estrutura da pele. Exames de ultrassom indicaram que a pele ficou mais densa, o que sugere maior presença de proteínas que dão firmeza e sustentação, como o colágeno. Além disso, as células da camada mais superficial da pele passaram a se renovar mais rápido, um sinal de que o tecido estava mais ativo.
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“Ficamos surpresos com a forte correlação entre os níveis de vitamina C no sangue e os da pele – essa correlação foi muito mais acentuada do que em qualquer outro órgão que já investigamos”, afirmou a professora Margreet Vissers, autora principal do estudo, ao jornal da Universidade de Otago.
Segundo a professora, os resultados reforçam a ideia de que o cuidado com a pele começa de dentro para fora. “A vitamina C chega à pele da forma como a natureza projetou, pela corrente sanguínea”, afirmou.
Ela lembra que o papel da vitamina C na produção de colágeno já é conhecido, o que explica sua presença em muitos cremes e séruns. “O problema é que a vitamina C é altamente solúvel em água e tem baixa absorção pela barreira externa da pele. Nosso estudo mostra que a pele é extremamente eficiente em captar vitamina C a partir do sangue, e que essa absorção pelas camadas mais externas parece ser priorizada”, disse.
Resultados com ressalvas
Apesar dos achados positivos, os próprios autores ressaltam que o estudo tem limitações e que os resultados devem ser interpretados com cautela. A pesquisa foi realizada com um número relativamente pequeno de participantes, todos adultos saudáveis. Isso significa que não é possível afirmar se os mesmos efeitos seriam observados em pessoas mais velhas, em indivíduos com doenças de pele ou em quem apresenta deficiência nutricional.
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Outro ponto é o tempo de acompanhamento. A pesquisa durou oito semanas, período suficiente para mostrar que a vitamina C da dieta chega à pele e altera alguns parâmetros estruturais, mas curto para avaliar efeitos de longo prazo, como mudanças sustentadas no colágeno ou impactos no envelhecimento cutâneo ao longo dos anos.
Além disso, embora a pele tenha se mostrado mais firme nos exames de imagem, os pesquisadores não conseguiram demonstrar um aumento direto do colágeno tipo I, o principal tipo de colágeno da pele. Em vez disso, foram usados indicadores indiretos, como a densidade observada ao ultrassom e sinais de maior atividade celular. Ou seja, os dados até sugerem melhora da estrutura da pele, mas não permitem afirmar de forma definitiva que houve aumento de colágeno.
Mais nem sempre é melhor
Do ponto de vista nutricional, o estudo também deixa claro que mais nem sempre é melhor. Os próprios autores mostram que a vitamina C atinge um limite de aproveitamento no organismo. Depois que os níveis no sangue chegam a um patamar considerado adequado, o excesso simplesmente não é utilizado e não se traduz em mais benefícios para a pele.
Isso reforça que, para a maioria das pessoas saudáveis, uma alimentação equilibrada e rica em frutas e vegetais é suficiente para atender às necessidades do nutriente, sem necessidade de suplementação rotineira.
Outro ponto importante é que embora o estudo tenha se concentrado no kiwi, os pesquisadores afirmaram que benefícios semelhantes são esperados de outros alimentos ricos em vitamina C, incluindo frutas cítricas, frutas vermelhas, pimentões e brócolis.
