Cientistas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolveram uma nova ferramenta para ajudar o consumidor a identificar produtos bons para o consumo: uma embalagem inteligente que muda de cor quando o alimento estraga.
A tecnologia é baseada em uma manta produzida utilizando técnicas de nanotecnologia e antocianinas, substâncias coloridas presentes em vegetais. Por enquanto, ela está sendo validada para o uso em peixes, mas investigações iniciais já indicam que pode ser útil para outros alimentos.
“Existem algumas iniciativas no mercado voltadas para embalagens inteligentes, mas a maioria ainda está em fase de protótipo ou usa materiais sintéticos e não biodegradáveis”, diz Josemar Gonçalves de Oliveira Filho, autor do trabalho, em entrevista a VEJA. “Nosso diferencial está no uso de polímeros naturais biodegradáveis e pigmentos naturais, tornando o produto final mais seguro e sustentável.”
Como funciona a mente inteligente?
A pequena manta é produzida utilizando fios nanométricos de policaprolactona, um polímero biodegradável que não faz mal para o organismo e serve como base para a fixação de um pigmento extraído do repolho roxo. Essa substância, formada pelas antocianinas, muda de cor de acordo com o pH do ambiente.
“O pH é uma medida que indica o grau de acidez ou alcalinidade de uma substância“, explica Oliveira Filho, que retornou ao Brasil há poucos meses, após um período de pesquisa no Departamento de Engenharia Mecânica e Industrial da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos. “Quando os alimentos se deterioram, especialmente os de origem animal, microrganismos degradam compostos presentes nos tecidos e liberam resíduos que aumentam esse indicador.”
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Até agora a manta foi testada em uma filé de peixe. O funcionamento pode ser observado a seguir. Inicialmente, quando alimento está fresco, o pigmento apresenta a coloração roxa, mas com o passar do tempo, com a mudança de pH devido à degradação, a substância fica azulada, indicando que o consumo não é indicado.
1/2 PEIXE FRESCO – Azul: embalagem indica que produto está bom (Josemar Filho/Embrapa/Divulgação)2/2 PEIXE ESTRAGADO – Azul: embalagem indica que produto não está bom (Josemar Filho/Embrapa/Divulgação)
Agora, a mesma tecnologia também está sendo testada para outros produtos. Como a maioria dos alimentos apresenta variação de acidez quando estragam, a aplicação pode ser bastante ampla. “Recentemente, demos início a estudos com queijo Minas frescal, que apresenta um perfil de deterioração distinto”, diz Oliveira Filho. “Os primeiros resultados indicam que o sistema pode ser adaptado para diferentes tipos de alimentos, com alguns ajustes.”
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Qual a importância da nanotecnologia?
O emprego da nanotecnologia foi indispensável para possibilitar o desenvolvimento desse produto. “Ela foi essencial para que pudéssemos criar um material sensível, eficiente e ao mesmo tempo seguro”, diz o pesquisador, que publicou os resultados da sua pesquisa na revista Food Chemistry. “Já iniciamos conversas com potenciais parceiros da indústria para viabilizar testes e buscar caminhos para a produção em larga escala.”
Geralmente, a produção de nanofibras é dispendiosa por ser produzida utilizando muita energia elétrica, mas outra tecnologia brasileira tem barateado o processo. Chamada de fiação por sopro em solução, ela foi desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba, em 2009, e permite a criação das mantas utilizando ar comprimido, um processo mais barato, rápido e escalável.
O potencial, contudo, não termina nas embalagens. O laboratório da Embrapa Instrumentação, liderado pelo pesquisador Luiz Henrique Capparelli Mattoso, também busca utilizar biopolímeros e compostos naturais para avaliar, por exemplo, crescimento microbiano e alterações químicas em cosméticos. Além disso, uma outra linha de investigação desenvolve revestimentos comestíveis, com base nesses mesmos produtos, para prolongar a vida útil dos alimentos – tudo isso sem comprometer o meio ambiente.
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