A Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH) explica que a hepatite autoimune é uma doença rara, relacionada a alterações no sistema imunológico, que causa inflamação crônica no fígado. Quando não tratada, pode evoluir para cirrose com mau funcionamento do órgão.
A doença não é contagiosa, ou seja, não é transmitida para outras pessoas. O sistema imune do paciente reconhece células hepáticas chamadas hepatócitos como agentes estranhos. O ataque das células provoca uma inflamação crônica, como o desenvolvimento de fibrose hepática, cicatrizes no fígado e cirrose.
De acordo com a SBH, a hepatite autoimune está associada à predisposição genética. A manifestação pode surgir devido à exposição a vírus, bactérias, medicamentos e outros agentes do meio ambiente. Contudo, a ocorrência da doença em familiares de quem já teve o problema não é frequente. A condição pode estar associada a outras patologias autoimunes, principalmente tireoidite, artrite reumatoide e também as doenças do fígado.
Sintomas
Segundo a Sociedade Brasileira de Hepatologia, em um terço dos casos, a doença se manifesta de forma aguda, parecida com uma hepatite viral: com icterícia (olhos amarelados), mal-estar, dor abdominal, náuseas e vômitos. Já as formas assintomáticas, diagnosticadas em exames de check-up, são pouco frequentes. A doença pode provocar insuficiência hepática aguda grave, que consiste na parada súbita do funcionamento do fígado, com necessidade de transplante hepático de urgência.
Diagnóstico e tratamento
A ausência de exames específicos para o diagnóstico da hepatite autoimune pode dificultar a identificação precoce da doença. O quadro clínico leva a um aumento das enzimas do fígado, principalmente AST e ALT, dos níveis de gamaglobulina e pela presença de autoanticorpos. Os índices podem ser dosados a partir de exames de sangue.
O tratamento é realizado a partir de medicamentos capazes de suprimir a ação do sistema imune, chamados imunossupressores. Além de trazer melhorias dos sintomas, os fármacos atuam para reverter a inflamação no fígado. As drogas mais utilizadas são Azatioprina e Prednisona, fornecidas gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Casos da doença
O médico Luis Felipe Paschoali compartilha dois casos de hepatite autoimune acompanhados por ele. O primeiro é a paciente Kelly Quene. “No caso dela, o corpo produz anticorpos contra as células do fígado em si. Manejei toda a parte diagnóstica e encaminhei ao serviço de hepatologia para dar continuidade no tratamento. Em pouco tempo, a paciente apresentou melhora clínica e laboratorial”, comenta.
Entramos em contato com Kelly. Ela diz que a descoberta da doença aconteceu por meio de exames. À época, ela tratava uma anemia quando os resultados se mostraram alterados e indicavam algo sério no fígado. Orientada pela hematologista, a paciente procurou alguns profissionais. Entretanto, neste intervalo de tempo, apesar de apresentar náuseas, acne no rosto, icterícia e estar muito fatigada, o problema não era solucionado. “Foi então que conheci o doutor Luís Felipe. Ele olhou os exames e pelo meu estado, logo suspeitou de hepatite autoimune. Ele pediu outros exames. Com os resultados, solicitou a biópsia para a confirmação final. Iniciei o tratamento em novembro de 2022, com corticoide e imunossupressor. Desde janeiro de 2023, tenho minha vida normal, com os devidos cuidados na alimentação, atividade física, acompanhamento médico e exames a cada três meses”, conta.
O segundo caso é o de Dalva Escorizza. O médico relata que recebeu uma mensagem da filha de Dalva dizendo que a mãe estava internada com suspeita de pancreatite. A filha enviou os exames para Luis Felipe. Ao analisá-los, ele viu que apesar de as enzimas pancreáticas estarem alteradas, não havia tanta elevação para se achar que fosse pancreatite. “No hospital descartaram pedra na vesícula e causas virais de hepatite, mas me chamou a atenção que o fígado apresentava sinais de doença crônica. Além disso, a paciente não possuía vícios como alcoolismo ou uso de drogas”, aponta. Ele fala que ao solicitar mais exames, o resultado mostrou que se tratava de uma doença rara, um tipo de hepatite autoimune chamado colangite biliar primária (o anticorpo produzido ataca as células dos canalículos biliares — pequenos canais que transportam a bile). Paschoali iniciou o tratamento e direcionou a paciente ao serviço de hepatologia. “Sempre encaminho os casos de hepatite para serviços de hepatite por questões de transplantes e pelos novos protocolos de tratamentos de hepatites virais”, pontua.
Conversamos com Denise, filha de Dalva. Ela ratifica a informação do médico e acrescenta que desde setembro do ano passado, os exames mostraram que o quadro de saúde de sua mãe estava melhor e o risco de transplante era muito baixo. Ela também informa que a mãe continua o acompanhamento com o médico Luis Felipe Paschoali para o controle da diabetes e leva uma vida normal nas atividades diárias.
