Médica diz que a espiritualidade abrange além de crenças religiosas individuais, questões existenciais mais amplas, como o significado e o propósito da vida
A otorrinolaringologista e docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Tanit Sanchez (CRM-SP 69.992), acredita que os médicos podem performar melhor quando são/estão mais abertos à questão da espiritualidade nos pacientes. Desde 1988, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a importância da espiritualidade e diz que a saúde é um estado dinâmico de completo bem-estar físico, mental, espiritual e social, e não meramente a ausência de doença ou enfermidade. Em 2019, a entidade incluiu oficialmente a “Dimensão Espiritual” na 11ª revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), no capítulo sobre Fatores que influenciam o estado de saúde ou o contato com os serviços de saúde. “Nós temos incentivo e embasamento para adicionar a abordagem das crenças espirituais dos pacientes, como forma de respeitar as necessidades deles e individualizar os tratamentos prescritos com foco em otimizar o processo de melhora e cura. Afinal, a espiritualidade pode ser uma fonte de conforto, esperança e resiliência para quem lida com doenças graves ou crônicas”, aponta.
Segundo a especialista, há várias evidências científicas sobre o efeito benéfico da espiritualidade na saúde, principalmente com práticas de meditação e/ou oração que promovem relaxamento e um senso de propósito, como a melhora do estresse, ansiedade e depressão, assim como do sistema imunológico, maior resiliência, adesão a tratamentos e rapidez na recuperação da qualidade de vida em pacientes com doenças crônicas.

Tanit lembra que o médico pode abordar o tema da espiritualidade e fé com o paciente interessado, de maneira cuidadosa e respeitosa, para estar aberto a discutir essas questões se o tema for relevante para o tratamento. “Entretanto, o ideal é manter uma postura neutra, sem impor as suas próprias crenças. Para os iniciantes, sugiro que essa abordagem seja feita por perguntas abertas sobre as crenças do paciente e como elas influenciam a percepção da saúde e da doença, para identificarmos possíveis recursos de apoio ao tratamento”, recomenda.
Experiência vivida com algum paciente onde a espiritualidade foi importante no tratamento
A médica compartilha dois exemplos de pacientes com zumbido crônico que já foram investigados anteriormente por outros profissionais e fizeram tratamento medicamentoso sem sucesso, mas se mostraram abertos para evidenciar seu lado espiritual da seguinte maneira:
- Para pacientes que falam algo como “eu adorava meditar, mas agora não consigo devido ao zumbido”, Tanit indica algo como: “considerando que há pelo menos seis pesquisas sugerindo o benefício da meditação no zumbido e a essência dela é “aqui e agora sem julgamento”, como soa adaptar sua estratégia da meditação para seguir o som do zumbido e ver onde ele lhe conduz? Pode ser que ele fique mais nítido inicialmente, mas vários pacientes me contaram que percebem uma diminuição depois”, pontua.
- Para pacientes que dizem “perdi a minha fé porque se Deus existisse, eu não teria zumbido”, a otorrinolaringologista mostra algo como: “considerando que expressar a fé é uma fonte de conforto para inúmeras pessoas, que tal se reconectar, buscar apoio e suporte em sua comunidade espiritual ou religiosa para que esse zumbido possa melhorar, em paralelo com o seguimento dos tratamentos convencionais definidos pela sua equipe de profissionais da saúde?”, finaliza.
