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    Home»Covid19»A geração do lockdown: estudo encontra efeitos duradouros no desenvolvimento infantil
    Covid19

    A geração do lockdown: estudo encontra efeitos duradouros no desenvolvimento infantil

    meioesaudeBy meioesaude15 de Julho, 2026Sem comentários5 Mins Read
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    Os primeiros 365 dias de vida são um período decisivo para o desenvolvimento da linguagem, das habilidades motoras e da chamada função executiva, uma espécie de “gerente do cérebro” das crianças, que permite organizar pensamentos, controlar impulsos, focar a atenção e seguir regras para atingir objetivos.

    O desenvolvimento nessa fase costuma ser favorecido pela convivência com diferentes pessoas, ambientes e experiências. Mas as crianças que nasceram durante o período de lockdown da pandemia de covid-19 viveram um contexto excepcional: passaram o primeiro ano de vida em meio a restrições de circulação e de contato social adotadas para conter a disseminação do coronavírus, o que reduziu as oportunidades de interação fora do núcleo familiar.

    Para avaliar o impacto dessas restrições no desenvolvimento infantil, pesquisadores do Reino Unido criaram o estudo “Born In COVID Year – Core Lockdown Effects” (Nascidos no Ano da COVID – Efeitos Centrais do Confinamento, em tradução literal), o BICYCLE.

    Coordenado pela City St George’s University of London, em Londres, a pesquisa analisou uma subamostra de 205 crianças nascidas durante o primeiro lockdown, entre 23 de março e 23 de junho de 2020. Segundo os pesquisadores, trata-se do primeiro estudo a incluir uma grande amostra de crianças em idade escolar nascidas durante o confinamento na Inglaterra.

    As crianças foram avaliadas por meio de medidas padronizadas de linguagem e capacidade de raciocínio não verbal. Os pais ou responsáveis também preencheram questionários sobre a função executiva de seus filhos, incluindo controle emocional, memória de trabalho, planejamento e organização, além da capacidade de resolver problemas de forma independente.

    Eles também foram questionados sobre as habilidades motoras das crianças. 25 delas foram avaliadas presencialmente e 180 foram avaliadas remotamente via Zoom, seguindo protocolos idênticos que incluíam de 3 a 4 sessões com duração de 45 a 60 minutos.

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    O que eles descobriram

    Os resultados preliminares do estudo indicaram que a função executiva relatada pelos cuidadores estava abaixo dos níveis típicos pré-pandemia e abaixo do que seria esperado com base na pontuação de raciocínio não verbal da criança. Um terço das crianças da amostra foi classificado como tendo necessidades relacionadas à função executiva.

    De acordo com os pesquisadores, os resultados sugerem que as limitações sociais nos primeiros anos de vida podem ter impactado a função executiva dessas crianças: elas podem ter dificuldade para se concentrar e persistir em tarefas, lembrar ou seguir instruções, resistir a distrações ou ajustar seu comportamento com base em feedback.

    Por outro lado, as pontuações gerais relacionadas à linguagem estavam no nível esperado ou acima do esperado para a idade. Os autores sugerem que a linguagem receptiva (a forma como a criança compreende a linguagem) pode ter sido, de certa forma, “protegida” pelo aumento da atenção e da comunicação por parte dos pais e cuidadores durante o lockdown.

    No entanto, quando os pesquisadores usaram os níveis de capacidade de raciocínio não verbal da criança como referência, perceberam que a linguagem expressiva (a forma como a criança usa palavras para se expressar) estava abaixo do esperado.

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    Segundo o estudo, as habilidades de linguagem expressiva podem ter sido prejudicadas pela perda de interações ricas e variadas com pessoas para além do núcleo familiar durante a pandemia. As habilidades motoras, por sua vez, estavam dentro do esperado para a idade quando comparadas às normas pré-pandemia.

    É possível recuperar essas habilidades?

    Para Maura Calixto, pediatra e membro do Departamento de Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), os resultados do estudo inglês certamente refletem um cenário global e as crianças brasileiras nascidas durante os períodos mais restritivos de lockdown, portanto, também podem ter sido afetadas de maneira semelhante.

    A redução do contato social, porém, não é o único fator envolvido. Calixto cita ainda a insegurança alimentar em populações mais vulneráveis, o aumento do estresse tanto nas crianças quanto nos cuidadores, e o uso excessivo de telas — que, além de reduzir ainda mais as interações reais, amplia o acesso a conteúdos inadequados e violentos.

    A boa notícia é que parte das habilidades ligadas à linguagem e função executiva pode ser recuperada. “O cérebro é plástico e ainda que mais plástico nos primeiros mil dias de vida, é sempre possível fomentar essa recuperação”, afirma a pediatra.

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    A especialista aconselha as seguintes estratégias:

    Aumentar a quantidade e prezar pela qualidade das interações reais das crianças;
    Incentivar o brincar;
    Reduzir tempo de tela;
    Incentivar a leitura;
    Estabelecer rotinas previsíveis que contribuam, entre outras coisas, para um sono de qualidade;
    Praticar exercícios físicos;
    Promover educação em saúde junto aos pais para ensinar habilidades socioemocionais e fortalecer vínculo afetivo entre ambos.

    Políticas educacionais

    O estudo inglês tem caráter observacional, ou seja, ele identificou uma associação entre o lockdown e a função executiva mais baixa nas crianças nascidas nesse período, mas não permite afirmar, com certeza, que um fator causou o outro.

    Mas os pesquisadores acreditam que os resultados apontam para um caminho: intervenções na escola e em casa, voltadas especificamente para a função executiva, poderiam ajudar no desenvolvimento dessas crianças, que podem precisar de apoio adicional em sala de aula, por exemplo.

    “De modo geral, esses achados oferecem uma visão inicial valiosa sobre os impactos do desenvolvimento pós-pandemia e ressaltam a necessidade urgente de políticas educacionais responsivas e de apoio direcionadas às crianças que que hoje estão em idade escolar”, afirmam os autores.



    FONTE: Meio e Saúde

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    meioesaude
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