Especialista comenta que esses avanços têm proporcionado melhorias significativas nos desfechos clínicos, oferecendo às pacientes opções mais eficazes e personalizadas
Os últimos anos têm testemunhado avanços significativos no tratamento de tumores femininos, especialmente no que diz respeito ao câncer de mama e câncer ginecológico. A seguir, a oncologista Maria Cristina Figueroa Magalhães (CRM-PR 22.643 e RQE 19.751) destaca algumas das inovações mais relevantes.
Medicina de precisão e oncogenômica: tem transformado o tratamento do câncer ao permitir a identificação de mutações específicas em tumores individuais, possibilitando terapias mais direcionadas e eficazes. A identificação de mutações germinativas nos genes BRCA1 e BRCA2 em pacientes com câncer de mama hereditário permite a utilização de inibidores de PARP (por exemplo, olaparibe), mostrando eficácia significativa nesse subgrupo de pacientes.
Imunoterapia: estimula o sistema imunológico a reconhecer e combater células tumorais. Ela tem apresentado resultados promissores em diversos tipos de câncer, incluindo os femininos. O uso de inibidores de checkpoint imunológico, como o pembrolizumabe, é utilizado em câncer de mama triplo negativo, mostrando aumento nas taxas de resposta patológica completa quando combinado com quimioterapia neoadjuvante. Outras aplicações recentes da imunoterapia têm sido nos tumores de colo de útero (tanto no cenário curativo quanto metastático) e no de endométrio.
Terapias-alvo moleculares: o desenvolvimento de terapias que atingem especificamente moléculas envolvidas no crescimento e progressão tumoral tem permitido tratamentos mais seletivos. No câncer de mama, por exemplo, o uso de trastuzumabe em tumores HER2-positivos tem melhorado significativamente os desfechos clínicos das pacientes com este subtipo de tumor.
Anticorpos droga-conjugados (ADCs): representam uma classe inovadora de terapias direcionadas que têm mostrado grande promessa no tratamento de diversos tumores femininos, especialmente no câncer de mama. Essas moléculas combinam a especificidade de um anticorpo monoclonal com a potência de uma droga citotóxica, permitindo a entrega precisa do medicamento diretamente às células tumorais, potencializando a eficácia, minimizando os efeitos colaterais sistêmicos.

Segundo a médica, um exemplo notável de ADC no tratamento do câncer de mama é o trastuzumabe emtansine (T-DM1). Ela explica que este medicamento consiste no anticorpo trastuzumabe, que tem como alvo a proteína HER2, conjugado à droga citotóxica emtansine. O T-DM1 é utilizado no tratamento de pacientes com câncer de mama HER2-positivo, especialmente após a falha de outras terapias anti-HER2. “Estudos clínicos demonstraram que o T-DM1 proporciona uma melhora significativa na sobrevida livre de progressão e na sobrevida global em comparação com outras opções terapêuticas no tratamento adjuvante da doença HER2 positiva que foi submetida ao tratamento neoadjuvante, com doença residual”, afirma.
Outro ADC em destaque é o sacituzumabe govitecan, que tem como alvo o antígeno Trop-2 e está conjugado à droga citotóxica govitecan. O medicamento foi aprovado para o tratamento de câncer de mama triplo negativo metastático previamente tratado, após demonstrar ganho em sobrevida global em comparação à quimioterapia.
Já o trastuzumabe deruxtecan (T-DXd) é um anticorpo droga-conjugado (ADC) inovador que tem demonstrado eficácia significativa no tratamento do câncer de mama, especialmente em casos de superexpressão de HER2. A oncologista conta que o T-DXd combina um anticorpo monoclonal cujo alvo é a proteína HER2, com um agente citotóxico, o deruxtecan. Após a ligação do anticorpo à HER2 na superfície das células tumorais, o complexo é internalizado, permitindo que o deruxtecan seja liberado diretamente no interior da célula cancerosa, onde inibe a topoisomerase I, uma enzima crucial para a replicação do DNA, resultando na morte celular.
Além disso, o estudo DESTINY-Breast04 investigou o uso de T-DXd em pacientes com câncer de mama metastático de baixa expressão de HER2 (HER2-low). Conforme a especialista, os achados revelaram que o T-DXd proporcionou ganho de sobrevida significativamente maior em comparação com o tratamento de escolha do médico, sugerindo que o T-DXd pode ser uma opção eficaz também para pacientes com baixa expressão de HER2.
No câncer de ovário, os ADCs têm mostrado resultados encorajadores, especialmente em casos resistentes à platina. O mirvetuximab soravtansine (não está disponível no Brasil) é um ADC que alvo a receptor de folato alfa, altamente expresso em células de câncer de ovário. “Estudos clínicos demonstraram que este medicamento proporciona uma sobrevida livre de progressão significativamente maior em comparação com a quimioterapia convencional em pacientes com câncer de ovário resistente à platina”, pontua.
Para o câncer cervical, o tisotumab vedotin (não disponível no país) é um ADC que combina um anticorpo direcionado contra o fator tecidual com o agente citotóxico monometil auristatina E. A oncologista lembra que o medicamento foi aprovado pela FDA (Food and Drug Administration), agência reguladora dos Estados Unidos, para o tratamento de pacientes com a doença recorrente ou metastática. “Eles receberam tratamento prévio após demonstrar benefícios significativos em termos de sobrevida global em comparação com à quimioterapia”, observa.
Inteligência Artificial e Big Data: a aplicação de inteligência artificial e análise de grandes volumes de dados (big data) tem contribuído para a identificação de padrões e biomarcadores que podem prever a resposta ao tratamento, permitindo a personalização das terapias e melhorando os resultados para as pacientes.
Terapias avançadas e medicina regenerativa: instituições como a Fiocruz investem em estratégias para desenvolver terapias avançadas, incluindo o uso de células-tronco e engenharia de tecidos, visando beneficiar pacientes com doenças oncológicas, infecciosas e genéticas.
Impacto na sobrevida
Maria Cristina ressalta que os avanços têm contribuído para melhorar as taxas de sobrevida em diversos tumores femininos. Por exemplo, a introdução de terapias-alvo moleculares e imunoterapia no tratamento do câncer de mama, câncer de colo de útero e câncer de endométrio leva a aumentos significativos na sobrevida global e sobrevida livre de progressão das pacientes. “O acesso a essas tecnologias ainda é desigual, e esforços contínuos são necessários para garantir que todas as pacientes possam se beneficiar desses progressos”, finaliza.
